segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

II

A noite estava escura e chuvosa, Pedro sobe a gola da gabardine para tentar proteger-se do vento enquanto inclina o chapéu para que ela não se molhe muito. Debruçada sobre o corpo inanimado de um homem brutalmente espancado tenta ver uma marca na sua face.

- há um padrão geométrico, talvez deixado por um anel?
- Sim é provável Johanna mas deixa que o médico legista depois analisa melhor e já tiraram fotos…
- Sim vamos, está desagradável, não está?
- Está? Diria que está uma bela noite…

Sorriu correspondendo ao tom irónico de Pedro, sempre apreciara essa sua qualidade de concordar discordando.
Viram-se e encaminham-se para o carro.

- Para deixar um homem naquele estado é preciso ser uma besta.
- … Depende do que entendes como “besta” Johanna… não sei se o agressor será sequer maior que a vítima… diria é que sabe muito bem como e onde bater e até que terá prazer em infligir dor.
- Porque dizes isso?
- … há partes do corpo que só atinges por prazer ou necessidade e não me parece que tivesse necessidade.

Pedro abre a porta para Johanna entrar, dá a volta ao carro fecha o chapéu de chuva e entra no lugar do condutor.

- Levo-te a casa?
- Se não te importas…

O carro arranca. O caminho é feito em silêncio, não há muito a comentar, é a terceira vítima mortal por espancamento no espaço de uma semana. Parece haver alguém muito zangado a vaguear pela cidade.

Pedro deixa-a à porta de casa e segue, dá dois passos de corrida para fugir à chuva e assim que acaba de abrir a porta do prédio, ouve uma respiração pesada atrás de si. Sem que pudesse reagir sente duas mãos fortes agarrá-la. Num instante uma está a tapar-lhe a boca agarra-a impedindo-a de se mexer. Ouve uma voz grave ao seu ouvido:

- … vocês não me apanharão mas eu posso apanhar-te quando quiser….

… E é empurrada para dentro do prédio com uma violência tal que não consegue evitar a queda. Levanta-se de imediato e abre a porta mas nada vê além de chuva e um carro que aparece ao início da rua. Volta a entrar e fecha a porta atrás de si encostando-se a ela enquanto tenta recuperar o fôlego. Ainda ofegante liga a Pedro e ouve o toque do outro lado da porta. Com a precipitação nem reconhecera o carro que entrara na rua, abre a porta.

- Estás aqui?
- Sim… voltei atrás pareceu-me ver algo… estás a tremer!
- …
- O que se passou? Conta-me!

Após um breve relato Johanna aceita o abraço de Pedro que a tenta confortar.

- Queres que suba?
- Não… estou bem… vai para casa que a tua mãe deve estar preocupada.
- … tens a certeza?
- Sim vai…

Pedro mesmo contrariado obedece e deixa-a no átrio de entrada do prédio já menos ofegante e aparentemente mais calma. Respira fundo e dirige-se para o elevador. Carrega no botão de chamada e fica a olhar para o mostrador, vendo os números decrescerem até ao zero. Abre a porta e entra. Carrega no botão do seu andar fecha os olhos e recorda tentando perceber o que acabou de se passar. Aquela voz ainda ecoa na sua mente. A forma pausada, confiante, desafiadora até, como falara aquele homem de mãos poderosas deixara-a mais perturbada do que quereria admitir. Entra em casa. Acende a luz e olha-se ao espelho que tem ao lado da porta. Procura-se como se tivesse necessidade de se encontrar.


Perdida nas memória acabara por adormecer no sofá onde acorda horas depois.


(continua)


FATifer

12 comentários:

  1. Respostas
    1. Espero não desapontar Ricardo…

      Abraço,
      FATifer

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  2. Ora bem, o II já lido, aguardo com expectativa o III

    :))

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  3. Olá, FATifer.

    Isto assim, lido pouco a pouco e retirado no momento em que estou mais empolgada, é como se me tirasses o rebuçado da boca , que é como quem diz, o livro das mãos!... :(
    Mas, como o que tem de ser tem muita força, lá vou ter de esperar até ao próximo capítulo.
    Bolas! :)

    Beijinhos e força nessa 'caneta'!

    Janita

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    1. Janita,

      Compreendo a frustração… mas…

      Beijinhos,
      FATifer

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    2. No fundo não há propriamente um sentimento de frustração.
      Sei que não és uma máquina de fabricar contos nem nenhum escritor o é!...
      Há livros que demoram meses ou anos a ser escritos! E este género de escrita requer muita habilidade mental...Criar personagens que possam levar o leitor a levantar suspeitas sobre o autor dos crimes, etc! :)
      Espero que não te tenhas melindrado, porque eu estava a tentar fazer um pouco de humor.
      Sei que não tenho muito jeito para isso, mas...

      Depois...eu sei esperar! :)

      Beijinhos

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    3. Não há qualquer melindre… :)
      Como disse, decidi publicar o início como forma de me “forçar“ a escrever esta história que tinha há muito começada.
      A “frustração” será mais minha de ainda não vos poder oferecer mais desenvolvimentos mas, como dizes, demora o seu tempo… ;)

      Beijinhos,
      FATifer

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  4. Caríssimo,

    Bom Ano.

    Muito fixe. É bom ver-te dedicado a uma história. Se precisares de alguma coisa, diz...

    E fico a aguardar continuação, porque tou curioso.

    Fortíssimo abraço

    :)

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    1. Meu caro amigo,

      Um bom ano para ti também!

      Tu sabes o que é ter uma história dentro de ti a querer ser escrita. Esta está finalmente a deixar-se escrever e até eu estou curioso onde isto vai parar… ;)

      É bom saber que te agradou até agora.

      Grande abraço,
      FATifer

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