segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

XVII

Um raio de luar ilumina o gume da lâmina manchada de vermelho que segura paralela à perna. Um pingo de sangue cai da ponta para a poça vermelha no chão. Olha o corpo esquartejado à sua frente, a expressão de horror misturado com dor extrema que retém a sua última vítima parece não ter qualquer efeito nele…
Num movimento rápido sacode do sabre japonês o resto de sangue que ficara na lâmina e embainha-o. Volta-se e desaparece nas sombras.


- Mais um?
- Sim Katerina, mais um.
- Quando é que o apanhamos?
- Não sei…
- … E o corpo?
- Desta vez nem o “tratou” mas nós “limpámos” antes de ser encontrado.
- Yuri… não pode ser… como é que este homem continua a iludir-nos?
- Como sabes não é um homem qualquer…
- Ainda assim é um homem não é?
- Alguns diriam que não…


Johanna está sentada no sofá com kitty no colo a receber festas. Tem um ar pensativo e um olhar distante. Enquanto afaga o dorso felpudo de kitty, está perdida em memórias. A circunstância de ter perdido a possibilidade de investigar o caso da morte de Pedro fá-la recordar:

Era o primeiro dia de trabalho com Pedro. O primeiro caso. Chegara cedo mas Pedro já não estava. Tinha um recado dele na sua secretária: “Vem ter comigo, estou na morada abaixo e traz café”. Dirigira-se para a morada indicada. Encontra Pedro a olhar para o corpo esquartejado de um homem. Faz um esforço para tentar esconder a repulsa que lhe causa a cena, enquanto entrega a Pedro o café que ele tina pedido.

- Bom dia. Obrigado pelo café.
- Bom dia… o que temos aqui?
- Bem, se não sabes o que é acho que não escolhi bem a parceira…
- …
- Não faças essa cara estava a brincar a ver se te descontraias um pouco. Ter de encarar logo de manhã um tipo todo estraçalhado não e propriamente o melhor que poderias pedir no primeiro dia, certo?
- O que é aquilo na costela?
- Ah! Afinal escolhi bem a parceira! Bem observado! Aquilo Johanna, é o o Kanji (ou carácter japonês) para morte. Parece ter sido cravado na costela a sangue frio, o que poderá explicar as feições da vítima.
- Estás a dizer-me que alguém fez aquilo quando ele ainda estava vivo?
- Penso que sim mas o Dr. Fernandes dirá se tenho ou não razão.

Recorda depois as palavras do Dr. Fernandes:

“Imaginemos que a vítima era uma obra de arte, a marca seria a assinatura. Sim foi feita com a vítima ainda viva. Tenho de afirmar que quem fez isto é um artista com uma lâmina!”

Recorda tudo isto pois este caso também lhes tinha sido “roubado” da mesma forma. Tornado “CONFIDENCIAL”. Recorda o desapontamento de Pedro na altura e a sensação com que ficara que ele não tinha desistido de o investigar. Deveria tentar fazer o mesmo com o caso da sua morte? Estava assim absorta nestes pensamentos quando a campainha toca. Assusta-se e kitty salta do seu colo. Levanta-se e vai até à porta. No visor do intercomunicador vê Martinho.

- Martinho o que foi?
- Johanna… desculpa vir sem avisar mas queria falar contigo…
- Ok… sobe.

Carrega no botão que faz disparar o trinco e volta para trás à procura de kitty. Vê-a de volta ao sofá e faz-lhe uma festa na cabeça. Ouve bater à porta. Muda o visor do intercomunicador para a vista do patamar confirmado que se trata de Martinho e abra a porta.

- O que é isto?
(Martinho aponta para um envelope colado na porta do apartamento de Johanna)
- Não sei Martinho…
- Este envelope já estava aqui quando cheguei ao patamar.
- Pois não fui eu que a pus aí, nem estava aí quando entrei.
- Queres que o traga para dentro?
- Hum… espera… vou buscar umas luvas.
- Sempre a Detective, se calhar é apenas uma carta de um admirador.
- Tu vês muitos filmes românticos…
- … e tu não vês nenhuns!

Johanna volta com um para de luvas de latex nas mãos e retira o envelope da porta. Depois faz sinal a Martinho para entrarem. Kitty salta do sofá e fita Martinho com um ar desconfiado.

- … deve estar a sentir o cheiro a cão…
- Talvez… ou então está apenas a recriminar-te teres interrompido a sessão de festas que estava a ser alvo.
- Desculpa kitty!

Joahanna sorri e senta-se à mesa da sala, começado a examinar o envelope que tem nas mãos. Martinho retira o casaco e pendura-o no bengaleiro, ao pé da porta, encaminhando-se de seguida para ao pé dela.

- Senta-te Martinho.
- Posso?
- Claro que sim.
- … não vejo nada de especial. Nenhuma marca… nenhum odor…
- Não vais abrir?
- Pois… será que devo?
- Estava colado na tua porta, deve ser para ti!
- Dedução brilhante, devias tornar-te detective!
- Ah, ah, ah … achas mesmo?



(continua)


FATifer

sábado, 13 de fevereiro de 2016

XVI

Martinho chega à sua secretária e olha para Johanna sentada à sua. A expressão facial dela transmite um misto de raiva e espanto.

- Olá Johanna… ia dizer bom dia mas com essa cara… o que se passa?
- O que se passa?!... o caso do assassinato do Pedro foi-nos roubado! É o que se passa! Ou melhor… devia dizer: “desapareceu”.
- O quê?! Como assim?
- Entra no sistema e vê… aparentemente tornou-se “CONFIDENCIAL”.
- … mas como? Quem?... não é justo!
- … (Johanna olha para Martinho franzindo a testa)
- Queres ficar mais “bem disposta” ainda?
- O que foi?
- … lembras-te daquele caso do homem encontrado em avançado estado de decomposição?
- Sim, o que tem?
- Também foi tornado “CONFIDENCIAL”!
- Fantástico!

Johanna recosta-se na cadeira e olha para o tecto. Martinho continua a olhar par ao monitor.

- Sabes que mais? O Vítor Andrade, aquela testemunha que interrogámos, também apareceu morto.
- Mais alguma “boa notícia”?
- … aparentemente não.
-ÓÓÓÓhhhhh...


Ficam ambos sentados a olha para o quadro do caso que ainda têm mas onde, sem mais provas, pouco podem fazer.


Yuri está sentado num cadeirão numa sala com vista panorâmica para um dos pátios de treino. Observa Katerina enquanto esta ultrapassa cada obstáculo do percurso. A agilidade felina é admirável. Yuri carrega num botão e liberta uma lâmina enorme, em forma de meia lua, que fica a baloiçar à frente de Katerina. Ela pára e olha na direcção de Yuri. Sorri dá dois passos e salta por cima da lâmina num salto perfeitamente temporizado de forma a não ser atingida pelas correntes que sustentam a lâmina. Completa o resto do percurso e pára à frente de Yuri, fitando-o. Yuri levanta-se do cadeirão, abre a porta de vidro e encaminha-se na direcção de Katerina. Num gesto fluido e rápido pega numa das espadas do escaparate à sua direita e disfere um golpe na direcção de Katerina. Esta roda para o seu lado direito e com uma cambalhota alcança outra espada do mesmo escaparate mesmo a tempo de defender o segundo golpe de Yuri, desferido agora já com a mão esquerda. Yuri pára e sorri. Katerina endireita-se e devolve o sorriso.

- Sempre atenta! Assim é que é, minha menina.

Katerina inclina a cabeça ligeiramente para a frente, num esboço de um vénia, e retoma a sua pose altiva parando de sorrir. Vira-se e segue na direcção da porta que Yuri deixara aberta. Sem se virar diz:

- Vou tomar um duche e depois vamos almoçar.

Yuri segue-a enquanto dá indicação, pelo auricular que tem na orelha esquerda, para que o almoço seja preparado. Vinte minutos depois estão os dois sentados a almoçar um carpaccio de salmão com aspecto delicioso.


- Explica-me outra vez qual é o próximo passo para encerrar o assunto do Zangief?
- Katerina não te preocupes, está controlado.
- … controlado? Desculpa mas não concordo…
- Tu és como o teu pai… mas nem tudo se resolve matando…
- Volto a não concordar… até percebo que tenhas usado toda a encenação para atrair o Pedro Castro. E que fique aqui registado que nesta instância foste tu que optaste pela solução do meu pai. Agora explica-me porque é que não era mais fácil matá-la e pronto?
- Não podes matá-la…
- Porque não?
- Katerina, não podes matar toda a gente!
-… (Katerina olha Yuri com um ar de desafio)
- … Katerina… sei que achas que não mas até para ti há limites…

Katerina solta uma sonora gargalhada enquanto olha para Yuri que mantém o ar grave com que proferiu a sua última frase. Acabam a refeição em silêncio.



Um vulto de negro caminha num corredor estreito com paredes de tijolo burro. Perto do tecto vêm-se tubagens. No chão, aqui e ali, há poças de água. Caminha calma mas decididamente ao longo do corredor até chegar a uma escada embutida na parede. Sobe a escada até alcançar um alçapão que se encontra no tecto. Para e encosta a orelha direita à tampa redonda que mais parece uma tampa de esgoto. De seguida com o golpe do ombro direito empurra a tampa abrindo-a. Sai. Está num beco escuro. O dia está nublado e uma neblina algo densa não permite muitos mais que alguns metros de visibilidade. Fecha a tampa devagar emitindo o mínimo ruído possível. Caminha na direcção do nevoeiro que se adensa, desaparecendo no mesmo.



(continua)


FATifer

domingo, 7 de fevereiro de 2016

Ontem vi…

 the revenant

E recomendo, desde que tenham estômago para o ver… está longe de ser um filme “leve” mas na minha opinião, foram 156 minutos da minha vida muito bem empregues!


FATifer

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

XV

Johanna repousa dentro da banheira de olhos fechados. O cheiro da vela que acendera enche o ambiente, ajudando-a a relaxar. O dia fora demasiado intenso até para ela que não gosta de estar parada. Talvez seja muito para digerir em tão pouco tempo e mesmo assim tinha acontecido. Por mais que doesse demais, o “problema” Pedro estava arrumado. Tenta com todas as forças não pensar em todas as dúvidas ainda por responder. Concentra-se em sentir a água quente e a sensação de conforto que esta lhe proporciona. Kitty está à porta fitando a dona.


Martinho está num bar ao balcão, com uma imperial à frente. Em condições normais já se teria levantado e puxado conversa com a loura dois bancos à sua direita ou até mesmo com as três amigas na mesa ao canto. Mas não, permanece imóvel a olhar as bolhinhas de gás a escapar do líquido. Está mergulhado em memórias. Recorda a primeira vez que vira Johanna. Ainda era um agente, ela e Pedro foram chamados para investigar a morte de um homem que ele encontrara. Se naquela altura lhe dissessem que um dia seria o parceiro daquela linda mulher, não acreditaria. Mas era e estava a agora preocupado com ela.



- Katerina…
- Sim Yuri…
- Sabes que estarei sempre do teu lado mas não achas perigoso ter eliminado os irmãos Kirchev?
- Podia perguntar-te se não foi um capricho parvo da tua parte teres morto o Pedro Castro?
- Katerina… era demasiado perigoso continuar a usá-lo…
- … achas? Pois eu acho que vamos sentir a sua falta, que é mais do que posso dizer dos irmãos Kirchev. Ah e já te disse que estás liberto da promessa que fizeste a meu pai.
- Achas que é por isso? E além de tudo o mais, não és tu quem decide a validade das minhas promessas!
- Yuri… Yuri… Yuri… a tua teimosia é quase tão admirável quanto a tua lealdade…


Katerina vira as costas a Yuri, deixa o robe preto de seda deslizar pelo seu corpo até se aninhar a seus pés. Yuri suspira perante aquela visão. Pausadamente entra na banheira à sua frente. Já deitada fita Yuri por momentos antes de fechar os olhos. Yuri retira-se.
À medida que vai percorrendo o longo corredor que liga a suíte de Katerina ao resto do complexo, Yuri recorda o dia em que fizera a promessa ao pai dela.

No chão gelado quase não se via o branco da neve tal era a quantidade de sangue derramado pelos corpos que preenchiam aquele que tinha sido o campo da batalha. Yuri está ajoelhado perante um homem sentado no chão e recostado numa pedra. O sangue escorre-lhe de vários golpes no peito. Olha Yuri e num último esforço dirige-lhe a palavra:

- Yuri…
- Sim Bogatyr.
- Como…como é que isto aconteceu?
- Não sei Bogatyr…
- Sabes sim… tu avisaste-me… mas orgulho cegou-me…
- Bogatyr, não fale… poupe as suas forças.
- Meu fiel Yuri… já não tenho salvação… tu tens de protegê-la… não há mais ninguém… tens de ser tu!...
- Sim Bogatyr, pela minha alma, protegê-la-ei sempre!
- Eu sei Yuri… a minha menina fica em boas mãos…



Martinho bebe o último gole da imperial e pousa o copo no balcão. A loura já não está dois bancos ao lado, saiu com outro cliente com mais iniciativa. As três amigas estavam já demasiado alegres e também já foram. Levanta-se e sai ele também do bar. A noite está fresca. No caminho para casa não consegue deixar de pensar em Johanna.
Entra em casa. Rataplan levanta momentaneamente o focinho as patas dianteiras ao ver o dono, retomando o seu descanso logo de seguida. Dirige-se ao sofá e entorna-se nele. Não lhe apetece mexer nem mais um músculo…



(continua)


FATifer

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

XIV

Johanna entra na esquadra e vai directa à sua secretária. Quando não vê Martinho na dele, pergunta onde ele está. Indicam-lhe que está no laboratório forense. Johanna dirige-se para lá.


- Johanna?!

- Olá Martinho.
- Detective McGill.
- Olá Francisco.
- O que é isso?
- É o que resta do telemóvel do Pedro.
- Ah… terá sido isso que despoletou a explosão então…
- Qual explosão?
- Já te explico… vamos para a nossa sala. Consegue fazer alguma coisa disso Francisco?
- Aaaaah…
- … ok … passe à próxima prova que tem para analisar.


Johanna conta a Martinho resumidamente os acontecimentos desde a noite anterior até ali.


- Dizes-me tu que foi ele que te ligou a dizer onde estava.
- Sim.
- E foste a um edifício onde viste um filme da morte dele mas não se via grande coisa.
- Sim.
-… e tiveste de sair a correr porque o prédio ia explodir?
- Sim.
- …estou a ver um filme e não paguei bilhete…


Johanna sorri. Martinho tem razão, há filmes com argumentos mais realistas do que o que ela acabou de contar. Recorda outra frase que sempre ouvira Pedro repetir “a realidade suplanta sempre a ficção”.



Algures numa sala com uma mesa enorme estão cinco homens sentados todos vestidos de preto. Fato, camisa, gravata, meias (e até as boxer) são todas pretas. Aquele que está sentado à cabeceira tem um lenço em vez de gravata mas o lenço também é preto. O homem que está mais longe e do lado esquerdo dele pergunta:

- Porque é que não a matamos e acabamos com o assunto?

O homem que está à direita do que está à cabeceira e mais perto deste responde:

- Matá-la mas tu endoideceste? O simples facto de perguntares pode ser a tua morte em vez da dela!
- Não compreendo tanta deferência… só por ser filha de quem é?
- Só? … quem é que pensas que és?
- Se dependesse de mim estaria morta!


As duas enormes portas, única entrada para esta sala, e opostas à cabeceira ocupada da mesa abrem-se repentinamente. Uma mulher esguia de pele muito branca e longos cabelos negros, entra, caminhando lenta mas decididamente do alto dos seus finíssimos saltos de agulha. Vestida totalmente de negro com um fato que realça o seu corpo de formas perfeitamente torneadas olha na direcção da mesa. Antes que alguém sequer se mexesse lança um pequeno punhal na direcção da cabeça do homem que estava do lado esquerdo e mais longe do que se sentava à cabeceira. A velocidade de reacção deste não lhe permite mais que virar a cabeça o faz com que o punhal, com o belo cabo em ébano, lhe perfure a têmpora esquerda, causando-lhe morte imediata.

- Alguém mais me quer ver morta?

Os restantes ocupantes da mesa não respondem, tentando nem sequer se mexer. Se conseguissem teriam parado de respirar.

- Ponto de situação Yuri.

O homem à cabeceira da mesa levanta a cabeça e tosse como que tentando ganhar tempo para ponderar o que responder.

- Ainda não o localizámos.
- … é assim tão difícil encontrar um homem?
- … um homem não… mas ele não é um homem, é uma sombra.
- Uma sombra? Hum… uma sombra só existe de houver luz…
- …
- … e os restantes assuntos?
- Estão controlados…
- Espero que melhor que este...


Não tendo chegado a alcançar a cabeceira da mesa vira-se e encaminha-se para as ainda abertas portas. Sem se virar para trás diz:

- Nem sequer penses nisso Vassily. Sabes que o teu irmão estava a pedi-las… queres acabar como ele?

O homem que está à esquerda de Yuri interrompe o gesto, que fazia com a mão direita, antes de alcançar a pistola que tem no coldre debaixo do braço esquerdo. Olha Yuri por segundos e retoma o movimento. Antes de o conseguir completar a sua cabeça está em cima da mesa em frente ao corpo inanimado do irmão.

- Obrigada Yuri.

Diz antes de sair da sala sem sequer olhar para trás. Parecia ter visto o golpe instantâneo de Yuri com o seu sabre japonês, que repousa ainda nas costas da cadeira de Vassily, parecendo o prolongamento do braço esquerdo de Yuri ainda estendido. As portas fecham-se atrás dela.



(continua)


FATifer

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

XIII

- Francisco!
- Sim detective.
- Quero que dês prioridade à análise do telemóvel. Assim que o rastreio de impressões digitais estiver concluído quero um relatório detalhado do seu conteúdo.
- Sim detective

Martinho dirige-se para a escada. A equipa forense está a arrumar o equipamento. O trabalho continuará no laboratório. Martinho segue para o carro. Ainda não acredita que vai ter de investigar o assassinato de Pedro. E Johanna onde estará?


Johanna olha para os outros vídeos na pasta. Tenta ver um com a data do dia se supunha ser o do assassinato do homem encontrado no armazém fechado perto do porto. Não consegue. Uma caixa de diálogo pede uma palavra passe e impede que o vídeo corra. A pasta contém mais cinco vídeos e todos estão protegidos da mesma forma. Tenta usar o seu nome e o nome da mãe de Pedro, sem sucesso. Dá uma pancada no tampo da secretária, tentando descarregar a frustração. Levanta-se da secretária e olha em volta. “Quem é que te matou Pedro? E porquê?”, são as dúvidas que lhe assaltam o espírito. Continua a perguntar como que esperando que Pedro pudesse responder: ”O que te fez ir àquele armazém?”. Passeia de um lado para o outro à frente da secretária. Recorda uma conversa que tivera com Pedro depois de um dos telefonemas:

- Se esse palhaço cometer o erro de se deixar localizar, eu mato-o!
- Que violência Pedro… prefiro que o apanhemos.
- Há pessoas que só entendem uma linguagem…
- Pegando no que dizes, não seria melhor criar condições para que lhe fizessem o que fez aos outros.
- … mas que perversa que tu estás… mas temo que se não fores ainda mais perversa, e quero com isto dizer considerares a hipótese de o incapacitar, ele não perderia uma luta.
- Talvez tenhas razão…


De repente ouve uma voz metálica dizer “ sequência de auto destruição iniciada”. Na parede aparece um relógio em contagem decrescente. Começou em cinco minutos. Pega no papel que estava no tampo da secretária e dirige-se para a porta mas não há forma de abrir. Bate com os punhos na porta. Olha em volta tentando manter alguma calma. Sem saber como uma porta abre-se na parede do lado esquerdo da sala. Corre para ela. Entra assim noutra sala repleta de armas. Ao fundo por trás de uma vitrine com um fato de aspecto “espacial” abre-se uma porta que parece ser de um elevador. Corre para a porta aberta. As portas fecham-se atrás de si e começa a descer. Em trinta segundos, que lhe parecem uma eternidade, está na garagem. Olha em volta, não parece haver porta! Decide entrar no Jeep Wrangler, quando ouve “dois minutos”. Assim que entra no carro uma parede começa abrir-se como se de uma porta se tratasse. O carro tem a chave na ignição. Liga-o e arranca em direcção à porta que se abrira. Sai para uma rua estreita. Pára antes do primeiro cruzamento. Está a uma distância que considera segura. Olha para trás e assiste ao prédio a desmoronar-se como um castelo de cartas. Olha para o tablier. Há um relógio em contagem decrescente com um minuto. Sai do carro a correr. Vai em direcção ao seu carro. A explosão do Jeep quase a faz cair. Entra no seu carro e arranca.


- Chamaste Francisco?
- Sim Detective?
- O que é isso à tua frente?
- É a razão pela qual o chamei.
- Não me digas que essa bolacha é o telemóvel do Pedro?
- Bem…
- O que é que tu fizeste?
- Eu não fiz nada!… isto é, apenas o tentei conectar ao computador…


(continua)


FATifer

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

XII

Johanna começou por procurar nos menus do programa de imagem por alguma indicação de alguma pasta onde pudessem estar vídeos mas não encontrou. Minimizou o programa e olho o ecrã em busca de algo que pudesse parecer relacionado. “Para quê usar uma câmara sem guardar as imagens?”, perguntava-se enquanto procurava pelo ecrã. Uma pasta parece piscar. Entra na pasta. Vídeos. O contentamento de parecer ter encontrado o que procurava deixa para segundo plano a estranheza de ter parecido ser encaminhada a tal. Verifica as datas o último tem a data do dia anterior. Abre o ficheiro. Começa por ver imagens do interior de um automóvel. Olha as imagens que vão passando. O vídeo parece não ser em tempo real, mais parecendo um conjunto de imagens espaçadas no tempo, como se fosse uma câmara de vigilância. Começa a reconhecer pontos do caminho para o armazém. De repente a imagem abana violentamente e o vídeo passa a ser em tempo real. O carro parece ter recebido uma violenta pancada por trás e depois está a sofrer pancadas de ambos os lados por parte de dois SUVs enormes. Vê um braço e uma mão tirar uma uzi de um saco no banco do passageiro. Uma rajada a ser disparada na direcção do condutor do SUV à direita do carro. A uzi muda de mão e o alvo passa ser o SUV à direita. Duas rajadas mais para baixo deverão ter inutilizado os pneus pois o segundo SUV também desaparece. O carro acelera e o vídeo volta a ser em modo vigilância. De repente ouve-se um som de outro motor. Uma moto de alta cilindrada aparece à frente do carro e o pendura dispara na direcção do carro. A uzi volta à acção, primeiro para retirar os restos do para-brisas depois para devolver fogo. Vê-se a sobra da moto a desaparecer na valeta tudo fica escuro sem os faróis. Vê-se uma mão a retirar do saco o que parecem ser óculos de visão nocturna. O vídeo volta a modo vigilância mas pouco se vê, pois quase não há iluminação na estrada. O resto do caminho até ao armazém é feito sem mais “interrupções”. Finalmente o carro pára. Mal se distingue o que parece ser o armazém que Johanna demora a reconhecer, por aparecer da perspetiva oposta à que ela teve.



- Detective Martinho?
- Sim Vieira?
- Quando movemos o corpo encontrámos algo que pode ser relevante.
- O quê Vieira?
- Uns óculos de visão nocturna.
- Ouviu isto Tenente? Está explicado como conseguiu chegar até a aqui sem faróis.
- Cheio de recursos este homem, sem dúvida.
- Obrigado Vieira.
- De nada Detective. Vamos metê-lo no saco.
- ok, já passo por aí para ver os óculos.


Martinho e Martins encaminham-se de volta ao interior do armazém.


Johanna sente a respiração alterada. Embora escura, a imagem permite perceber que tendo dado poucos passos depois de ter saído do carro Pedro foi atingido de raspão no braço esquerdo por algo que não se vê. Apenas se ouve algo a passar e depois a mão direita de Pedro ensanguentada após ter tocado no braço esquerdo. Vê-se uma porta do armazém que Pedro força para entrar. Dentro do armazém está ainda mais escuro. Pouco se vê e quase nada se ouve. Pedro começa a explorar o rés-do-chão, cuidadosamente. Quando chega às escadas hesita. Sobe cautelosamente. O primeiro andar parece ainda mais escuro. Vai avançando não se ouve nada a não se a sua respiração e os seu passos. De repente ouve-se o som que se ouvira na rua mas agora multiplicado. Pedro cai de joelhos e começa a disparar as metralhadoras que lhe aparecem nas mãos. Despeja os clips, disparando em todas as direcções. Os clarões dos disparos param. A respiração é quase ofegante. De repente um abanão, parece um golpe violento no peito. Vê-se o que parece uma lança. Empunhando-a um vulto negro. Ouve-se o grito de dor de Pedro enquanto a lança parece ser empurrada ainda mais para o interior do seu peito. O vulto retira a lança e desaparece. Pedro cai. Retira a pistola e dispara dois tiros na direcção em que se vira o vulto. Larga a arma. Com visível dificuldade retira um papel e uma caneta e começa a escrever. Johanna reconhece o bilhete que está agora na secretária à sua frente. Vê a mão esquerda colocá-lo no bolso direito do colete onde o tinha encontrado. Vê depois a mensagem que recebera a ser escrita. Recorda o telefonema vendo-o agora de outra perspetiva. Não consegue evitar as lágrimas quando vê o telemóvel a cair ouvindo a sua voz a chamar por Pedro. O vídeo acaba.


(continua)


FATifer