- Bom dia
Johanna.
- Bom dia
Martinho.
- Como foi o
resto do fim-de-semana?
- Passou-se…
- Ele não voltou
a telefonar?
- Não.
- Fiz o pedido
para voltarem a monitorar o teu telefone mesmo não acreditando que o façam. Não
temos motivos que o justifiquem.
- Pois.
Johanna
sentara-se à secretária com a chávena de café entre as mãos a tentar
aquecê-las. Martinho fez uma pausa como que a dar-lhe o tempo que o olhar dela
parecia pedir e depois continuou:
- Temos um caso
mas podes acabar o café.
- Temos um caso
e não me dizes nada? Vamos!
Johanna engole
o resto do café de um golo e levanta-se. Martinho segue-a.
Em pouco tempo
estão no local do crime, um armazém abandonado perto do porto. No centro da
sala ampla está um poça de sangue acima da qual está o corpo de um homem
suspenso, como que emaranhado, na cortinha de correntes enferrujadas que vêm do
tecto.
- Bom dia Semedo.
- Bom dia
detectives.
- A que horas
foi encontrado?
- Seis da manhã,
o guarda nocturno ouviu um barulho e entrou neste espaço que não faz parte da
ronda pois deveria estar fechado.
- E não estava?
- Segundo o
guarda, a porta principal, a mesma por onde entraram, estava. Solicitei a
verificação de todas as outras.
- Muito bem.
Conte-me o que sabemos mais.
- Pouco mais do
que está à vista. Estamos à espera que a equipa forense acabe de documentar a
sua posição para o retirar e verificar se tem identificação. Como disse este
espaço devia estar fechado pois o armazém está para venda.
- Encontraram os
pés e as mãos?
- … ainda não.
- Obrigado …
- Johanna? O que
foi?
Johanna
afastara-se para o canto da sala oposto à porta por onde haviam entrado e
olhava estática a cena do crime.
- Johanna?
- Olha Martinho…
Martinho
virou-se e olhou. Viu o que ela estava a ver e ficou calado como ela estava…
- Detectives…
encontraram alguma coisa? Porquê essas caras? Virgem Santíssima!…
O agente Semedo
tinha-se virado olhando na mesma direcção que Johanna e Martinho. O que parecia
um emaranhado de correntes, naquele ângulo e só naquele ângulo, era uma
sequência ordenada de traços que formava um padrão geométrico com o corpo no
centro.
Um outro agente chega
ao pé do agente Semedo e como que com receio de interromper o silêncio segreda-lhe
algo. Ao virar-se olhando na mesma direcção que os restantes não consegue
conter um “o que raio?” de espanto.
- Detectives…
posso confirmar que todas as entradas à excepção da principal, incluindo janelas,
estão fechadas. E não foram encontrados as mãos e os pés da vítima dentro deste
edifício.
- Obrigado
agente Semedo. Peço aos peritos forenses para fotografarem a cena do crime
deste ângulo antes de retirarem o corpo, por favor.
- Sim detective.
Os dois agentes
afastam-se e Martinho fita Johanna que ainda não conseguira deixar de olhar na
direcção do corpo daquele ângulo.
- Johanna… não sei que dizer… uma coisa é
não acreditar em coincidências outra é isto!...
Johanna não responde mas desvia finalmente
o olhar na direcção da porta. Observa um homem alto, moreno, bem constituído,
de fato cinzento e óculos escuros que se dirige para eles.
- Pedro…
- Johanna. Detective Martinho.
- Pedro? O teu antigo parceiro?
- Sim, detective Martinho, sou o antigo
parceiro da Johanna.
- Mas não tinha desaparecido nas sombras
após a morte de sua mãe?
- Ninguém desaparece… com sorte conseguimos
tornar-nos mais difíceis de encontrar…
Pedro completou a frase com um sorriso enigmático,
ao virar-se a sua expressão muda e o corpo contrai-se, como que tentando
dissimular o espanto.
- … sim Pedro, é o mesmo padrão… não me
digas que não estavas à espera de algo assim?
- Para te ser franco, estava à espera de
algo mas não assim…
- A vida é cheia de surpresas… ou talvez
não.
- Johanna…
- Desculpa, eu sei que não é a altura… mas
a que devemos a honra?
- Fiquei preocupado contigo depois de teres
ligado.
- Não devias… O que achas disto? … Já sei,
vamos esperar pelo que diz o médico legista…
Pedro sorri e não responde. Os três
encaminha-se de volta ao centro da sala. Querem olhar para o corpo mais de
perto assim que este for retirado das correntes.
(continua)
FATifer