terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Crónica motociclista XIII

Desculpem-me todos aqueles que estavam à espera de mais um capítulo da história que vos comecei a contar mas hoje tinha de assinalar o facto de ter tido o privilégio de conduzir o “monstro” que vêm na foto ali em baixo! É realmente um privilégio ter amigos que nos emprestam brinquedos destes. Hoje fiquei com pena que o meu percurso diário tenha “apenas” 60 km (30 na ida e o mesmo na volta), pois nesta “menina” ia muito mais longe. É difícil descrever o que se sente quando se conduz um “bicho” destes. Sim, bate demasiado em baixas. Sim, não tem muita protecção aerodinâmica. Mas o som daquele motor… a resposta ao punho (acelerador) é qualquer coisa de indiscritível! Cheguei ao trabalho com um sorriso de orelha a orelha e fiquei o dia todo a pensar na viagem de volta a casa. Já disse que sou um colecionador de momentos e estes têm lugar de destaque na minha colecção. Para aqueles que queiram uma comparação, ainda que “mal amanhada”, é como quem conduz um Mazda MX5 (sim que a minha menina – moto – também merece ser valorizada! ) poder conduzir um Porsche 911.


Há dias assim… felizmente!

Ducati Monster 695

FATifer



PS – …conta a minha mamã que quando era pequeno havia um disco que adorava ouvir vezes sem conta, quando acabava pedia logo: “outra vez!”… desta vez não pedi mas o desejo foi concedido, amanhã haverá mais! 

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

VI

Johanna está sentada à secretária. Embora pareça olhar para o monitor, o seu olhar vago e distante indicia que não está ali e agora.


- Johanna… acabei de receber o relatório preliminar da perícia forense… nada de diferente a assinalar…
- …ele vai fazer um erro mais cedo ou mais tarde… ninguém é perfeito…
- …ele… assumes… nem isso sabemos!
- Pedro, aquelas mãos, aquela voz… não podia ser uma mulher!
- Assumes que quem te atacou é o autor destes crimes. Percebo mas não temos provas que o sustentem.
- Sim Pedro, não temos provas mas eu sinto-o. Chama-se um palpite e os meus palpites tendem a estar correctos, com tão bem sabes.
- … algum palpite quanto ao paradeiro do homem?

Johanna atira uma borracha na direcção de Pedro que sorri enquanto a apanha com a mão que tinha livre, continuando a ler as folhas que tinha na outra.

- Ora recapitulemos, temos três vítimas do sexo masculino de idades compreendidas entre os vinte e os cinquenta e sete anos. Dois caucasianos e um negro. Não encontrámos nenhuma ligação clara entre eles à excepção de serem propensos a actos de violência.
- Certo…


- Johanna chegou isso para ti.
- Obrigada Martinho.

Johanna olha para um embrulho que Martinho colocara na secretária à sua frente. É uma caixa pequena, cinzenta com o lacinho dourado. Abre a caixa. Afasta o papel de celofane e descobre um anel. Tem de se conter para não o agarrar de imediato. Abra a primeira gaveta da secretária retira um par de luvas que calça. Depois pega finalmente no anel e inspeciona-o. Tem um aspecto tosco e batido. Umas nervuras de lado juntam-se no disco central. Olha para as marcas nesse disco, distingue um padrão geométrico que identifica de imediato. Mesmo assim pressiona o anel contra o bloco de folhas que tinha na secretária. Com um lápis sombreia a marca deixada pelo anel. Pega no bloco com as duas mãos e fica a observar. Na sua face um ar de confirmação.
Martinho olha-a só desviando a sua atenção para o bloco quanto ela o pousa junto ao anel na secretária.

- O embrulho vinha numa caixa de transportadora endereçado a ti e sem remetente. Questionámos a transportadora que indicou que o homem que o deixou pagou extra ao funcionário para que o envio fosse feito assim. A descrição do homem em causa não ajuda muito: aparentava ser um sem abrigo com cerca um metro e oitenta, moreno, barba, óculos escuros, boné, calças de ganga e blusão verde tropa. A câmara de vídeo da agência estava avariada na altura da entrega pelo que não temos imagens. Estamos a tentar verificar se há alguma câmara de trânsito ou de um multibanco na área que possa ter captado algo.
- Muito bem Martinho, excelente trabalho. Entrega a caixa e o anel à equipa forense para análise. Embora suspeite que não vão encontrar nada de útil.
- Ok.

Johanna coloca o anel dentro da caixa, esta dentro de um saco de prova e entrega-o a Martinho.


Algures na cidade uma sombra entra num prédio com um ar abandonado. Depois de percorrer um corredor na penumbra, chega a uma parede que se abre misteriosamente à sua frente e entra numa sala ampla mas também pouco iluminada. Descalça as botas, retira o longo casaco preto de pele que pendura num cabide e dirige-se a um suporte onde deposita, com uma vénia, um sabre japonês. Entra noutra divisão de onde sai momentos depois, já sem as calças de couro e a camisa pretas. Enverga um kimono yukata azul escuro, com um padrão que quase não se distingue. Dirige-se à cozinha e pega num frasco. Retira três colheres cheias, uma após a outra, de grãos de café para um moinho manual. Procede à moagem do café por recurso a movimentos de cadência constante. Abra a gaveta e retira o pó com uma colher de madeira para uma espécie de funil onde colocara um filtro. A chaleira apita, pega nela vertendo de seguida o conteúdo de água no filtro. Um líquido escuro começa a cair numa pequena taça colocada por baixo do funil com o filtro. Todos os movimentos foram realizados de uma forma elegante como se de um ritual se tratasse…
Com a taça nas mãos senta-se no chão em frente a uma mesa rasa, tem a mão esquerda debaixo da taça e a outra a envolvê-la do lado direito, mantendo esta forma de a agarrar leva-a à boca e bebe um gole de café fechando os olhos.


(continua)


FATifer

domingo, 10 de janeiro de 2016

V

Johanna está sentada no sofá com um copo de Whiskey nas mãos. A kitty deitada a seu lado olha-a com um ar sonolento. Bebe um golo e suspira. Só o corpo está ali, a mente está anos atrás…

- Johanna a minha mãe morreu, nada me prende aqui…
- … então e eu?
- Tu?...
- Sim eu… não entro nessa equação?
- … não…
- Pedro!...
- … adeus Johanna.

Johanna olha-o enquanto Pedro se afasta. O carro arranca e apenas o som da chuva que martiriza o pano do chapéu se ouve. No fundo sabia que este dia chegaria, esta vida era demasiado “normal” para ele. Não devia ter-se deixado encantar por aquele homem. Desde de que o vira que os seus instintos a tinham avisado disso e mesmo assim não resistira. Havia algo nele que o tornava irresistível embora não soubesse dizer o quê, se lhe perguntassem.

O telefone toca. Não faz menção de atender. O telefone deixa de tocar. Não se interessa em ver quem era. Continua absorvida nas memórias. Bebe mais um golo.

- Johanna, o que se passa?
- Pedro…
- Sim, o que se passa?
- …nada mas…
-  Johanna, deite-te este número em caso de necessidade. Não me faças arrepender-me de o ter feito.
- Desculpa… queria ouvir a tua voz…
- Johanna, pensei que tinha deixado bem claro que entre nós apenas há a dívida de gratidão por teres salvo a minha mãe. Honrarei a palavra dada, por isso te dei este número… não foi para ouvires a minha voz.
- …
- … não chores… mas tens de perceber que na minha vida não há lugar para romance. Cuida-te!


Bebe o resto do whiskey de um trago. O copo escorrega por entre as suas mãos e cai no tapete enquanto as lágrimas escorrem por suas faces.


Move-se como uma sombra na noite, parece que desliza… numa esquina um homem bate numa mulher. Ela encolhe-se e protege a cara à espera do próximo golpe que parece tardar mais do que esperava. A medo baixa um braço e com surpresa constata que o agressor já não está à frente dela. Olha em volta tentando perceber como pode ter desaparecido e para onde…
Num beco escuro não muito longe o homem que há momentos tinha os olhos raiados de sangue enquanto batia selvaticamente na mulher, que ainda não percebeu como ele desapareceu, agora tem o olhar parado. Observa um vulto negro que tem à frente sem perceber onde está e como foi ali parar. Numa sequência de movimentos quase imperceptível para este homem, o vulto de preto envia quatro kunai (espécie de punhais ninja) que lhe acertam, dois nos ombros e dois na cintura, fixando-o firmemente à porta de madeira maciça atrás de si. A dor que sente é grande mas o medo é maior pelo que não chega a gritar. O vulto de negro aplica, num movimento rápido, um golpe na traqueia do homem. Só se apercebe que deixou de conseguir falar quando, instantes depois, se vê impossibilitado de gritar, como pretendia, em resposta ao gesto que o vulto à sua frente acabara de fazer – abanou o indicador da mão direita para a direita e para a esquerda e terminou com o polegar para baixo.
A última coisa que sente é o golpe na jugular feito pelo wakizashi (sabre japonês de pequenas dimensões) empunhado por aquele vulto, que o fez acabar de se esvair em sangue…
O vulto de preto recolhe os kunai, lança um spray sobre o corpo e desaparece nas sombras.


Johanna chega à secretária e tem um bilhete de Martinho:

“O Dr. Fernandes chamou-nos, quando chegares vai lá ter ;)“

Volta vestir o casaco que despira e dirige-se para a porta.

- Bom dia Dr. Fernandes. Martinho.
- Bom dia Miss McGill.
- Johanna.
- E então o que nos pode dizer Dr. Fernandes?
- … bem, como dizia aqui ao detective Fonseca. Para começar posso dizer que este desgraçado não parece ter ficado com um único osso inteiro da sova que terá levado.
- Encontrou marcas que indiquem se foi empregue alguma arma?
- Não é fácil afirmar. A maioria das marcas aparentam ter sido provocadas com as mãos. Uma ou outra marca poderia ter sido causada por um bastão ou uma soqueira. A marca mais curiosa que encontrei é um padrão geométrico na face esquerda. Tenho a sensação de já o ter visto antes mas a minha memória já não é o que era.
- É este? (Johanna retirara um foto do bolso e mostrava-a ao Dr. Fernandes)
- Esse mesmo!
- E que mais? As mãos e os pés, como foram cortados?
- Mãos e pés foram amputados post-mortem recorrendo a uma lâmina afiada. Não tendo ambos os lados é difícil especificar qual o objecto empregue mas diria que nos quatro casos a amputação foi feita num só golpe.
- Causa da morte?
- O golpe no nariz que o afundou crânio dentro.
- Conseguiu identifica-lo?
- Infelizmente ainda não. Sem as mais e os dentes que foram todos removidos resta-nos esperar pelo teste de ADN, para ver se por acaso está no sitema.
- Mais alguma coisa?
- Apenas mencionar que a marca com o padrão geométrico, que parecia já estar à espera que encontrasse, terá sido feita post-mortem como as aputações. Os resultados das análises toxicológicas estarão no meu relatório. O teste de ADN demorará mais uma semana.
- Ok, obrigada Dr. Fernandes.
- Obrigado Dr. Fernandes.
- Detectives…



(continua)


FATifer

sábado, 9 de janeiro de 2016

IV

Depois feitas todas as fotos o corpo é finalmente retirado das correntes e inspecionado. Não tem identificação e, como aparentava, está bastante desfigurado.

- Pode levá-lo Vieira e diga ao Dr. Fernandes que esta autópsia deve ser a prioridade!
- Sim menina.
- … continua a chamar-te menina.
- Pedro, ele conhece-me desde que nasci.
- O que te parece isto tudo?
- Não sei… ou melhor, parece-me um quadro e o pintor é outro!
- Estás a pensar o mesmo que eu?
- Sim… pode ser ele… a vítima!
- Será?... já sei, vamos esperar pelo que diz o Dr. Fernandes…
- … sim… mas lembra-te que nunca teremos a certeza…
- … nunca digas nunca.
Martinho escutava a conversa sem se querer intrometer. Claramente havia muito sobre o “amigo” de Johanna que não constava do ficheiro que tinha lido.

Os três saíram pela porta principal do armazém. Era quase hora de almoço. Johanna convidara Pedro para almoçar com eles mas este recusara. Encaminhava-se com Martinho para o automóvel enquanto Pedro seguia na direcção oposta, encaminhando-se para o seu. Entes de entrar no carro Pedro olhou na direção deles e Johanna acenou-lhe adeus.

- Onde queres ir almoçar?
- Não sei Martinho, escolhe tu.
- …bem sendo assim, vamos à tasca do Manel comer umas sandes de torresmos…
- Pode ser…
- Johanna?! Tu nem ouviste o que eu disse pois não?
- …hum? O quê?
- Bem me parecia. Estás bem?
- …
- Eu tentei fazer de conta mas é mais forte do que eu e tu sabes!… queres contar-me o que ainda não me contaste sobre o teu “amigo”?
- Martinho…
- … ok esquece, vamos almoçar.


Pedro segue de carro por uma rua estreita que parece acabar num beco. O carro imobilizado é percorrido por um feixe verde. O que parecia uma parede abre-se e ele entra.


Johanna e Martinho entram no restaurante do costume. Sentam-se na mesa de costume. O empregado do costume serve-lhes o costume.

- Não sabia que tinhas mantido contacto como Pedro.
- Não tinhas de saber! E não mantive…
- Apenas assumi porque ele disse que tinha ligado mas já vi que não queres falar do assunto…
- Ele deu-me um número para lhe ligar em caso de necessidade, só isso… e sim não quero falar do assunto.
- O tempo está…

Johanna fuzila Martinho com o olhar, este sorri mas não insiste. Acabam a refeição em silêncio, eles, que no restaurante é quase impossível ouvir-se a pessoa do lado sem que esta grite.
De volta ao escritório Johanna senta-se ao computador a ver a fotos da cena no crime. Abre uma pasta com outras imagens. Coloca lado a lado uma imagem de um rosto quase desfigurado e a imagem da cena do crime “naquele ângulo”. Inclina-se para a frente e imediatamente se recosta na cadeira libertando um suspiro que revela um misto de desalento e resignação.

- Já confirmaste que é o mesmo padrão geométrico.
- Sim.
- E agora?
- Agora esperamos pelo resto, em particular a autópsia.
- Ok…


Pedro está numa sala escura. Apenas um fio de luz contorna o tecto. Na parede em frente dele estão projectadas um conjunto de imagens para as quais olha em silêncio. Levanta-se da cadeira e dirige-se à parede à sua esquerda. Coloca a palma de mão num rectângulo quase imperceptível. Depois de uns segundo ouve-se um som de fecho a abrir e uma porta abre-se lentamente à sua frente. Entra numa divisão com as paredes coberta de armas. Penduradas nas paredes estão desde lança rockets, espingardas de assalto, metralhadoras e pistolas, do lado esquerdo, a todo o tipo de espadas, bastões e facas, do lado direito. Em frente um conjunto de vestimentas para todo o tipo de operação de combate. Dirige-se ao centro da parede do fundo da sala e fica a olhar fixamente para o fato colocado numa vitrine em local de destaque.



(continua)

FATifer

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

III

- Bom dia Johanna.
- Bom dia Martinho.
- Como foi o resto do fim-de-semana?
- Passou-se…
- Ele não voltou a telefonar?
- Não.
- Fiz o pedido para voltarem a monitorar o teu telefone mesmo não acreditando que o façam. Não temos motivos que o justifiquem.
- Pois.

Johanna sentara-se à secretária com a chávena de café entre as mãos a tentar aquecê-las. Martinho fez uma pausa como que a dar-lhe o tempo que o olhar dela parecia pedir e depois continuou:

- Temos um caso mas podes acabar o café.
- Temos um caso e não me dizes nada? Vamos!

Johanna engole o resto do café de um golo e levanta-se. Martinho segue-a.

Em pouco tempo estão no local do crime, um armazém abandonado perto do porto. No centro da sala ampla está um poça de sangue acima da qual está o corpo de um homem suspenso, como que emaranhado, na cortinha de correntes enferrujadas que vêm do tecto.

- Bom dia Semedo.
- Bom dia detectives.
- A que horas foi encontrado?
- Seis da manhã, o guarda nocturno ouviu um barulho e entrou neste espaço que não faz parte da ronda pois deveria estar fechado.
- E não estava?
- Segundo o guarda, a porta principal, a mesma por onde entraram, estava. Solicitei a verificação de todas as outras.
- Muito bem. Conte-me o que sabemos mais.
- Pouco mais do que está à vista. Estamos à espera que a equipa forense acabe de documentar a sua posição para o retirar e verificar se tem identificação. Como disse este espaço devia estar fechado pois o armazém está para venda.
- Encontraram os pés e as mãos?
- … ainda não.
- Obrigado …

- Johanna? O que foi?

Johanna afastara-se para o canto da sala oposto à porta por onde haviam entrado e olhava estática a cena do crime.

- Johanna?
- Olha Martinho…

Martinho virou-se e olhou. Viu o que ela estava a ver e ficou calado como ela estava…

- Detectives… encontraram alguma coisa? Porquê essas caras? Virgem Santíssima!…

O agente Semedo tinha-se virado olhando na mesma direcção que Johanna e Martinho. O que parecia um emaranhado de correntes, naquele ângulo e só naquele ângulo, era uma sequência ordenada de traços que formava um padrão geométrico com o corpo no centro.

Um outro agente chega ao pé do agente Semedo e como que com receio de interromper o silêncio segreda-lhe algo. Ao virar-se olhando na mesma direcção que os restantes não consegue conter um “o que raio?” de espanto.

- Detectives… posso confirmar que todas as entradas à excepção da principal, incluindo janelas, estão fechadas. E não foram encontrados as mãos e os pés da vítima dentro deste edifício.
- Obrigado agente Semedo. Peço aos peritos forenses para fotografarem a cena do crime deste ângulo antes de retirarem o corpo, por favor.
- Sim detective.

Os dois agentes afastam-se e Martinho fita Johanna que ainda não conseguira deixar de olhar na direcção do corpo daquele ângulo.

- Johanna… não sei que dizer… uma coisa é não acreditar em coincidências outra é isto!...

Johanna não responde mas desvia finalmente o olhar na direcção da porta. Observa um homem alto, moreno, bem constituído, de fato cinzento e óculos escuros que se dirige para eles.

- Pedro…
- Johanna. Detective Martinho.
- Pedro? O teu antigo parceiro?
- Sim, detective Martinho, sou o antigo parceiro da Johanna.
- Mas não tinha desaparecido nas sombras após a morte de sua mãe?
- Ninguém desaparece… com sorte conseguimos tornar-nos mais difíceis de encontrar…

Pedro completou a frase com um sorriso enigmático, ao virar-se a sua expressão muda e o corpo contrai-se, como que tentando dissimular o espanto.

- … sim Pedro, é o mesmo padrão… não me digas que não estavas à espera de algo assim?
- Para te ser franco, estava à espera de algo mas não assim…
- A vida é cheia de surpresas… ou talvez não.
- Johanna…
- Desculpa, eu sei que não é a altura… mas a que devemos a honra?
- Fiquei preocupado contigo depois de teres ligado.
- Não devias… O que achas disto? … Já sei, vamos esperar pelo que diz o médico legista…

Pedro sorri e não responde. Os três encaminha-se de volta ao centro da sala. Querem olhar para o corpo mais de perto assim que este for retirado das correntes.

(continua)


FATifer

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

II

A noite estava escura e chuvosa, Pedro sobe a gola da gabardine para tentar proteger-se do vento enquanto inclina o chapéu para que ela não se molhe muito. Debruçada sobre o corpo inanimado de um homem brutalmente espancado tenta ver uma marca na sua face.

- há um padrão geométrico, talvez deixado por um anel?
- Sim é provável Johanna mas deixa que o médico legista depois analisa melhor e já tiraram fotos…
- Sim vamos, está desagradável, não está?
- Está? Diria que está uma bela noite…

Sorriu correspondendo ao tom irónico de Pedro, sempre apreciara essa sua qualidade de concordar discordando.
Viram-se e encaminham-se para o carro.

- Para deixar um homem naquele estado é preciso ser uma besta.
- … Depende do que entendes como “besta” Johanna… não sei se o agressor será sequer maior que a vítima… diria é que sabe muito bem como e onde bater e até que terá prazer em infligir dor.
- Porque dizes isso?
- … há partes do corpo que só atinges por prazer ou necessidade e não me parece que tivesse necessidade.

Pedro abre a porta para Johanna entrar, dá a volta ao carro fecha o chapéu de chuva e entra no lugar do condutor.

- Levo-te a casa?
- Se não te importas…

O carro arranca. O caminho é feito em silêncio, não há muito a comentar, é a terceira vítima mortal por espancamento no espaço de uma semana. Parece haver alguém muito zangado a vaguear pela cidade.

Pedro deixa-a à porta de casa e segue, dá dois passos de corrida para fugir à chuva e assim que acaba de abrir a porta do prédio, ouve uma respiração pesada atrás de si. Sem que pudesse reagir sente duas mãos fortes agarrá-la. Num instante uma está a tapar-lhe a boca agarra-a impedindo-a de se mexer. Ouve uma voz grave ao seu ouvido:

- … vocês não me apanharão mas eu posso apanhar-te quando quiser….

… E é empurrada para dentro do prédio com uma violência tal que não consegue evitar a queda. Levanta-se de imediato e abre a porta mas nada vê além de chuva e um carro que aparece ao início da rua. Volta a entrar e fecha a porta atrás de si encostando-se a ela enquanto tenta recuperar o fôlego. Ainda ofegante liga a Pedro e ouve o toque do outro lado da porta. Com a precipitação nem reconhecera o carro que entrara na rua, abre a porta.

- Estás aqui?
- Sim… voltei atrás pareceu-me ver algo… estás a tremer!
- …
- O que se passou? Conta-me!

Após um breve relato Johanna aceita o abraço de Pedro que a tenta confortar.

- Queres que suba?
- Não… estou bem… vai para casa que a tua mãe deve estar preocupada.
- … tens a certeza?
- Sim vai…

Pedro mesmo contrariado obedece e deixa-a no átrio de entrada do prédio já menos ofegante e aparentemente mais calma. Respira fundo e dirige-se para o elevador. Carrega no botão de chamada e fica a olhar para o mostrador, vendo os números decrescerem até ao zero. Abre a porta e entra. Carrega no botão do seu andar fecha os olhos e recorda tentando perceber o que acabou de se passar. Aquela voz ainda ecoa na sua mente. A forma pausada, confiante, desafiadora até, como falara aquele homem de mãos poderosas deixara-a mais perturbada do que quereria admitir. Entra em casa. Acende a luz e olha-se ao espelho que tem ao lado da porta. Procura-se como se tivesse necessidade de se encontrar.


Perdida nas memória acabara por adormecer no sofá onde acorda horas depois.


(continua)


FATifer