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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

XVIII

Johanna levanta-se e dirige-se à escrevaninha que está num canto por trás do sofá. Abre uma pequena gaveta e retira uma lâmina com a qual abre o envelope cuidadosamente. Volta para a mesa e senta-se ao lado de Martinho. Olha para dentro do envelope. Este contém apenas um cartão com uma mensagem que lê em voz alta:

“Para saber o que aconteceu a Pedro Castro, esteja sozinha amanhã às 23:32 no armazém em que o encontrou.”

Depois de ela acabar de ler, Martinho e Johanna olham um para o outro por um instante.

- O que vamos fazer?
- Vamos? Não sei se é boa ideia tu ires Martinho.
- Estás a brincar? … Como assim não é boa ideia eu ir?
- Ouviste o que eu li? Está escrito “sozinha”…
- Não estás a considerar ir sozinha, pois não?
- Porque não? Amanhã é sábado, não tenho nada melhor para fazer… além do mais, não podemos mobilizar meios oficialmente. Se é “CONFIDENCIAL” também não terão pistas dadas por mim!
- Johanna, eu sei que me vais dizer que já és crescidinha mas isto não te parece uma cilada?
- Martinho… eu sei o que parece mas pode ser a única oportunidade que terei de tirar a limpo o que aconteceu ao Pedro.
- … e estás disposta a dar a tua vida por isso?
- Não exageres! … mas, no limite, até te diria que sim…
- Johanna, não posso permitir que o faças!
- A decisão não é tua Martinho.
- Johanna… não…
- Martinho, lembra-te do que prometemos um ao outro quando nos tornámos parceiros. A decisão do outro será sempre respeitada!
- Sim Johanna mas… é demasiado perigoso!
- Eu sei mas não vou deixar passar esta oportunidade!
- Não há mesmo nada que possa dizer que te faça mudar de ideias, pois não?
- Sabes que não Martinho mas também sabes que sei que apenas queres o meu bem…
- Por isso mesmo não estou a gostar nada da ideia de ires sozinha de novo aquele armazém…
(Johanna olha para Martinho com um olhar terno)
- Martinho, esqueçamos esta questão por momentos. O que é que vinhas cá fazer afinal?
- Eu? Vinha falar contigo. Com tudo o que se tem passado quase não temos conversado. Tens estado tão calada ao almoço. Pensei que pudesses querer desabafar, sei lá…
(Johanna sorri)
- Desabafar não mas podemos falar, se quiseres…
- Johanna… eu… não devia ter vindo aqui…
- Martinho… coragem… diz o que te vai na alma, não tenhas medo.
- … não devo…

Johanna levanta-se e segue até ao bar. Pega em dois copos de shot que coloca lado a lado. Seguidamente pega numa garrafa em forma de caveira e enche os dois copos. Retorna ao pé de Martinho com um copo em cada mão. Martinho levantara-se antes dela chegar ao pé dele.

- O que é isto? Porquê a forma da garrafa?
- Crystal Head Vodka, já ouviste falar?
- Não.
- Prova… ou melhor bebe que um shot não é para provar!

Johanna estendo o braço esquerdo entregando um dos copos a Martinho. Os copos tocam-se num brinde e cada um engole o conteúdo do copo que tem na mão de um só trago.

- E agora, já tens coragem de dizer que me desejas?
- Eu … Johanna…
- Achas que sou cega? Ou parva?
- … sou assim tão óbvio?
- Não… tu até te esforças para tentar disfarçar mas…
- Aparentemente não o bastante…
- Homem, o que é que estás à espera?
- Eu… tu…
- … e depois nós mulheres é que somos complicadas! Tenho de te obrigar? …ou será que é assim que gostas?

O sorriso de Johanna não durou muito pois Martinho interrompeu-o com um beijo. Abraçam-se. As bocas separam-se para recuperarem ambos o fôlego. As mãos de Martinho acham os seios de Johanna por baixo do camisolão que ela tem vestido, enquanto as dela desabotoam rapidamente a camisa de Martinho. Olham-se e retomam o beijo. A camisa de Martinho está no chão. Sem quebrar o beijo, Johanna inicia o movimento de ambos em direcção ao quarto. Quebram o beijo com Martinho de costas para a cama. Johanna empurra-o e ele cai na cama. Ela tira-lhe os sapatos e as meias. Depois retira o camisolão deixando à mostra os seus seios perfeitos. Martinho olha-a de forma libidinosa. Ela sobe para a cama ficando em cima dele impedindo o movimento que ele iniciara para retirar as calças. Ela desaperta-lhe o cinto, depois o botão e seguidamente o fecho das calças. Deita-se em cima dele e com os pés faz deslisar as calças ao longo das pernas dele deixando-o apenas de boxers. As últimas peças de roupa desaparecem e os corpos entregam-se um ao outro num movimento ritmado de cadência inicialmente lenta mas com aceleração à vista. Os desejos reprimidos libertam-se ao som de gemidos e suspiros de prazer.


(continua)

FATifer

XVII

Um raio de luar ilumina o gume da lâmina manchada de vermelho que segura paralela à perna. Um pingo de sangue cai da ponta para a poça vermelha no chão. Olha o corpo esquartejado à sua frente, a expressão de horror misturado com dor extrema que retém a sua última vítima parece não ter qualquer efeito nele…
Num movimento rápido sacode do sabre japonês o resto de sangue que ficara na lâmina e embainha-o. Volta-se e desaparece nas sombras.


- Mais um?
- Sim Katerina, mais um.
- Quando é que o apanhamos?
- Não sei…
- … E o corpo?
- Desta vez nem o “tratou” mas nós “limpámos” antes de ser encontrado.
- Yuri… não pode ser… como é que este homem continua a iludir-nos?
- Como sabes não é um homem qualquer…
- Ainda assim é um homem não é?
- Alguns diriam que não…


Johanna está sentada no sofá com kitty no colo a receber festas. Tem um ar pensativo e um olhar distante. Enquanto afaga o dorso felpudo de kitty, está perdida em memórias. A circunstância de ter perdido a possibilidade de investigar o caso da morte de Pedro fá-la recordar:

Era o primeiro dia de trabalho com Pedro. O primeiro caso. Chegara cedo mas Pedro já não estava. Tinha um recado dele na sua secretária: “Vem ter comigo, estou na morada abaixo e traz café”. Dirigira-se para a morada indicada. Encontra Pedro a olhar para o corpo esquartejado de um homem. Faz um esforço para tentar esconder a repulsa que lhe causa a cena, enquanto entrega a Pedro o café que ele tina pedido.

- Bom dia. Obrigado pelo café.
- Bom dia… o que temos aqui?
- Bem, se não sabes o que é acho que não escolhi bem a parceira…
- …
- Não faças essa cara estava a brincar a ver se te descontraias um pouco. Ter de encarar logo de manhã um tipo todo estraçalhado não e propriamente o melhor que poderias pedir no primeiro dia, certo?
- O que é aquilo na costela?
- Ah! Afinal escolhi bem a parceira! Bem observado! Aquilo Johanna, é o o Kanji (ou carácter japonês) para morte. Parece ter sido cravado na costela a sangue frio, o que poderá explicar as feições da vítima.
- Estás a dizer-me que alguém fez aquilo quando ele ainda estava vivo?
- Penso que sim mas o Dr. Fernandes dirá se tenho ou não razão.

Recorda depois as palavras do Dr. Fernandes:

“Imaginemos que a vítima era uma obra de arte, a marca seria a assinatura. Sim foi feita com a vítima ainda viva. Tenho de afirmar que quem fez isto é um artista com uma lâmina!”

Recorda tudo isto pois este caso também lhes tinha sido “roubado” da mesma forma. Tornado “CONFIDENCIAL”. Recorda o desapontamento de Pedro na altura e a sensação com que ficara que ele não tinha desistido de o investigar. Deveria tentar fazer o mesmo com o caso da sua morte? Estava assim absorta nestes pensamentos quando a campainha toca. Assusta-se e kitty salta do seu colo. Levanta-se e vai até à porta. No visor do intercomunicador vê Martinho.

- Martinho o que foi?
- Johanna… desculpa vir sem avisar mas queria falar contigo…
- Ok… sobe.

Carrega no botão que faz disparar o trinco e volta para trás à procura de kitty. Vê-a de volta ao sofá e faz-lhe uma festa na cabeça. Ouve bater à porta. Muda o visor do intercomunicador para a vista do patamar confirmado que se trata de Martinho e abra a porta.

- O que é isto?
(Martinho aponta para um envelope colado na porta do apartamento de Johanna)
- Não sei Martinho…
- Este envelope já estava aqui quando cheguei ao patamar.
- Pois não fui eu que a pus aí, nem estava aí quando entrei.
- Queres que o traga para dentro?
- Hum… espera… vou buscar umas luvas.
- Sempre a Detective, se calhar é apenas uma carta de um admirador.
- Tu vês muitos filmes românticos…
- … e tu não vês nenhuns!

Johanna volta com um para de luvas de latex nas mãos e retira o envelope da porta. Depois faz sinal a Martinho para entrarem. Kitty salta do sofá e fita Martinho com um ar desconfiado.

- … deve estar a sentir o cheiro a cão…
- Talvez… ou então está apenas a recriminar-te teres interrompido a sessão de festas que estava a ser alvo.
- Desculpa kitty!

Joahanna sorri e senta-se à mesa da sala, começado a examinar o envelope que tem nas mãos. Martinho retira o casaco e pendura-o no bengaleiro, ao pé da porta, encaminhando-se de seguida para ao pé dela.

- Senta-te Martinho.
- Posso?
- Claro que sim.
- … não vejo nada de especial. Nenhuma marca… nenhum odor…
- Não vais abrir?
- Pois… será que devo?
- Estava colado na tua porta, deve ser para ti!
- Dedução brilhante, devias tornar-te detective!
- Ah, ah, ah … achas mesmo?



(continua)


FATifer

sábado, 13 de fevereiro de 2016

XVI

Martinho chega à sua secretária e olha para Johanna sentada à sua. A expressão facial dela transmite um misto de raiva e espanto.

- Olá Johanna… ia dizer bom dia mas com essa cara… o que se passa?
- O que se passa?!... o caso do assassinato do Pedro foi-nos roubado! É o que se passa! Ou melhor… devia dizer: “desapareceu”.
- O quê?! Como assim?
- Entra no sistema e vê… aparentemente tornou-se “CONFIDENCIAL”.
- … mas como? Quem?... não é justo!
- … (Johanna olha para Martinho franzindo a testa)
- Queres ficar mais “bem disposta” ainda?
- O que foi?
- … lembras-te daquele caso do homem encontrado em avançado estado de decomposição?
- Sim, o que tem?
- Também foi tornado “CONFIDENCIAL”!
- Fantástico!

Johanna recosta-se na cadeira e olha para o tecto. Martinho continua a olhar par ao monitor.

- Sabes que mais? O Vítor Andrade, aquela testemunha que interrogámos, também apareceu morto.
- Mais alguma “boa notícia”?
- … aparentemente não.
-ÓÓÓÓhhhhh...


Ficam ambos sentados a olha para o quadro do caso que ainda têm mas onde, sem mais provas, pouco podem fazer.


Yuri está sentado num cadeirão numa sala com vista panorâmica para um dos pátios de treino. Observa Katerina enquanto esta ultrapassa cada obstáculo do percurso. A agilidade felina é admirável. Yuri carrega num botão e liberta uma lâmina enorme, em forma de meia lua, que fica a baloiçar à frente de Katerina. Ela pára e olha na direcção de Yuri. Sorri dá dois passos e salta por cima da lâmina num salto perfeitamente temporizado de forma a não ser atingida pelas correntes que sustentam a lâmina. Completa o resto do percurso e pára à frente de Yuri, fitando-o. Yuri levanta-se do cadeirão, abre a porta de vidro e encaminha-se na direcção de Katerina. Num gesto fluido e rápido pega numa das espadas do escaparate à sua direita e disfere um golpe na direcção de Katerina. Esta roda para o seu lado direito e com uma cambalhota alcança outra espada do mesmo escaparate mesmo a tempo de defender o segundo golpe de Yuri, desferido agora já com a mão esquerda. Yuri pára e sorri. Katerina endireita-se e devolve o sorriso.

- Sempre atenta! Assim é que é, minha menina.

Katerina inclina a cabeça ligeiramente para a frente, num esboço de um vénia, e retoma a sua pose altiva parando de sorrir. Vira-se e segue na direcção da porta que Yuri deixara aberta. Sem se virar diz:

- Vou tomar um duche e depois vamos almoçar.

Yuri segue-a enquanto dá indicação, pelo auricular que tem na orelha esquerda, para que o almoço seja preparado. Vinte minutos depois estão os dois sentados a almoçar um carpaccio de salmão com aspecto delicioso.


- Explica-me outra vez qual é o próximo passo para encerrar o assunto do Zangief?
- Katerina não te preocupes, está controlado.
- … controlado? Desculpa mas não concordo…
- Tu és como o teu pai… mas nem tudo se resolve matando…
- Volto a não concordar… até percebo que tenhas usado toda a encenação para atrair o Pedro Castro. E que fique aqui registado que nesta instância foste tu que optaste pela solução do meu pai. Agora explica-me porque é que não era mais fácil matá-la e pronto?
- Não podes matá-la…
- Porque não?
- Katerina, não podes matar toda a gente!
-… (Katerina olha Yuri com um ar de desafio)
- … Katerina… sei que achas que não mas até para ti há limites…

Katerina solta uma sonora gargalhada enquanto olha para Yuri que mantém o ar grave com que proferiu a sua última frase. Acabam a refeição em silêncio.



Um vulto de negro caminha num corredor estreito com paredes de tijolo burro. Perto do tecto vêm-se tubagens. No chão, aqui e ali, há poças de água. Caminha calma mas decididamente ao longo do corredor até chegar a uma escada embutida na parede. Sobe a escada até alcançar um alçapão que se encontra no tecto. Para e encosta a orelha direita à tampa redonda que mais parece uma tampa de esgoto. De seguida com o golpe do ombro direito empurra a tampa abrindo-a. Sai. Está num beco escuro. O dia está nublado e uma neblina algo densa não permite muitos mais que alguns metros de visibilidade. Fecha a tampa devagar emitindo o mínimo ruído possível. Caminha na direcção do nevoeiro que se adensa, desaparecendo no mesmo.



(continua)


FATifer

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

XV

Johanna repousa dentro da banheira de olhos fechados. O cheiro da vela que acendera enche o ambiente, ajudando-a a relaxar. O dia fora demasiado intenso até para ela que não gosta de estar parada. Talvez seja muito para digerir em tão pouco tempo e mesmo assim tinha acontecido. Por mais que doesse demais, o “problema” Pedro estava arrumado. Tenta com todas as forças não pensar em todas as dúvidas ainda por responder. Concentra-se em sentir a água quente e a sensação de conforto que esta lhe proporciona. Kitty está à porta fitando a dona.


Martinho está num bar ao balcão, com uma imperial à frente. Em condições normais já se teria levantado e puxado conversa com a loura dois bancos à sua direita ou até mesmo com as três amigas na mesa ao canto. Mas não, permanece imóvel a olhar as bolhinhas de gás a escapar do líquido. Está mergulhado em memórias. Recorda a primeira vez que vira Johanna. Ainda era um agente, ela e Pedro foram chamados para investigar a morte de um homem que ele encontrara. Se naquela altura lhe dissessem que um dia seria o parceiro daquela linda mulher, não acreditaria. Mas era e estava a agora preocupado com ela.



- Katerina…
- Sim Yuri…
- Sabes que estarei sempre do teu lado mas não achas perigoso ter eliminado os irmãos Kirchev?
- Podia perguntar-te se não foi um capricho parvo da tua parte teres morto o Pedro Castro?
- Katerina… era demasiado perigoso continuar a usá-lo…
- … achas? Pois eu acho que vamos sentir a sua falta, que é mais do que posso dizer dos irmãos Kirchev. Ah e já te disse que estás liberto da promessa que fizeste a meu pai.
- Achas que é por isso? E além de tudo o mais, não és tu quem decide a validade das minhas promessas!
- Yuri… Yuri… Yuri… a tua teimosia é quase tão admirável quanto a tua lealdade…


Katerina vira as costas a Yuri, deixa o robe preto de seda deslizar pelo seu corpo até se aninhar a seus pés. Yuri suspira perante aquela visão. Pausadamente entra na banheira à sua frente. Já deitada fita Yuri por momentos antes de fechar os olhos. Yuri retira-se.
À medida que vai percorrendo o longo corredor que liga a suíte de Katerina ao resto do complexo, Yuri recorda o dia em que fizera a promessa ao pai dela.

No chão gelado quase não se via o branco da neve tal era a quantidade de sangue derramado pelos corpos que preenchiam aquele que tinha sido o campo da batalha. Yuri está ajoelhado perante um homem sentado no chão e recostado numa pedra. O sangue escorre-lhe de vários golpes no peito. Olha Yuri e num último esforço dirige-lhe a palavra:

- Yuri…
- Sim Bogatyr.
- Como…como é que isto aconteceu?
- Não sei Bogatyr…
- Sabes sim… tu avisaste-me… mas orgulho cegou-me…
- Bogatyr, não fale… poupe as suas forças.
- Meu fiel Yuri… já não tenho salvação… tu tens de protegê-la… não há mais ninguém… tens de ser tu!...
- Sim Bogatyr, pela minha alma, protegê-la-ei sempre!
- Eu sei Yuri… a minha menina fica em boas mãos…



Martinho bebe o último gole da imperial e pousa o copo no balcão. A loura já não está dois bancos ao lado, saiu com outro cliente com mais iniciativa. As três amigas estavam já demasiado alegres e também já foram. Levanta-se e sai ele também do bar. A noite está fresca. No caminho para casa não consegue deixar de pensar em Johanna.
Entra em casa. Rataplan levanta momentaneamente o focinho as patas dianteiras ao ver o dono, retomando o seu descanso logo de seguida. Dirige-se ao sofá e entorna-se nele. Não lhe apetece mexer nem mais um músculo…



(continua)


FATifer

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

XIV

Johanna entra na esquadra e vai directa à sua secretária. Quando não vê Martinho na dele, pergunta onde ele está. Indicam-lhe que está no laboratório forense. Johanna dirige-se para lá.


- Johanna?!

- Olá Martinho.
- Detective McGill.
- Olá Francisco.
- O que é isso?
- É o que resta do telemóvel do Pedro.
- Ah… terá sido isso que despoletou a explosão então…
- Qual explosão?
- Já te explico… vamos para a nossa sala. Consegue fazer alguma coisa disso Francisco?
- Aaaaah…
- … ok … passe à próxima prova que tem para analisar.


Johanna conta a Martinho resumidamente os acontecimentos desde a noite anterior até ali.


- Dizes-me tu que foi ele que te ligou a dizer onde estava.
- Sim.
- E foste a um edifício onde viste um filme da morte dele mas não se via grande coisa.
- Sim.
-… e tiveste de sair a correr porque o prédio ia explodir?
- Sim.
- …estou a ver um filme e não paguei bilhete…


Johanna sorri. Martinho tem razão, há filmes com argumentos mais realistas do que o que ela acabou de contar. Recorda outra frase que sempre ouvira Pedro repetir “a realidade suplanta sempre a ficção”.



Algures numa sala com uma mesa enorme estão cinco homens sentados todos vestidos de preto. Fato, camisa, gravata, meias (e até as boxer) são todas pretas. Aquele que está sentado à cabeceira tem um lenço em vez de gravata mas o lenço também é preto. O homem que está mais longe e do lado esquerdo dele pergunta:

- Porque é que não a matamos e acabamos com o assunto?

O homem que está à direita do que está à cabeceira e mais perto deste responde:

- Matá-la mas tu endoideceste? O simples facto de perguntares pode ser a tua morte em vez da dela!
- Não compreendo tanta deferência… só por ser filha de quem é?
- Só? … quem é que pensas que és?
- Se dependesse de mim estaria morta!


As duas enormes portas, única entrada para esta sala, e opostas à cabeceira ocupada da mesa abrem-se repentinamente. Uma mulher esguia de pele muito branca e longos cabelos negros, entra, caminhando lenta mas decididamente do alto dos seus finíssimos saltos de agulha. Vestida totalmente de negro com um fato que realça o seu corpo de formas perfeitamente torneadas olha na direcção da mesa. Antes que alguém sequer se mexesse lança um pequeno punhal na direcção da cabeça do homem que estava do lado esquerdo e mais longe do que se sentava à cabeceira. A velocidade de reacção deste não lhe permite mais que virar a cabeça o faz com que o punhal, com o belo cabo em ébano, lhe perfure a têmpora esquerda, causando-lhe morte imediata.

- Alguém mais me quer ver morta?

Os restantes ocupantes da mesa não respondem, tentando nem sequer se mexer. Se conseguissem teriam parado de respirar.

- Ponto de situação Yuri.

O homem à cabeceira da mesa levanta a cabeça e tosse como que tentando ganhar tempo para ponderar o que responder.

- Ainda não o localizámos.
- … é assim tão difícil encontrar um homem?
- … um homem não… mas ele não é um homem, é uma sombra.
- Uma sombra? Hum… uma sombra só existe de houver luz…
- …
- … e os restantes assuntos?
- Estão controlados…
- Espero que melhor que este...


Não tendo chegado a alcançar a cabeceira da mesa vira-se e encaminha-se para as ainda abertas portas. Sem se virar para trás diz:

- Nem sequer penses nisso Vassily. Sabes que o teu irmão estava a pedi-las… queres acabar como ele?

O homem que está à esquerda de Yuri interrompe o gesto, que fazia com a mão direita, antes de alcançar a pistola que tem no coldre debaixo do braço esquerdo. Olha Yuri por segundos e retoma o movimento. Antes de o conseguir completar a sua cabeça está em cima da mesa em frente ao corpo inanimado do irmão.

- Obrigada Yuri.

Diz antes de sair da sala sem sequer olhar para trás. Parecia ter visto o golpe instantâneo de Yuri com o seu sabre japonês, que repousa ainda nas costas da cadeira de Vassily, parecendo o prolongamento do braço esquerdo de Yuri ainda estendido. As portas fecham-se atrás dela.



(continua)


FATifer

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

XIII

- Francisco!
- Sim detective.
- Quero que dês prioridade à análise do telemóvel. Assim que o rastreio de impressões digitais estiver concluído quero um relatório detalhado do seu conteúdo.
- Sim detective

Martinho dirige-se para a escada. A equipa forense está a arrumar o equipamento. O trabalho continuará no laboratório. Martinho segue para o carro. Ainda não acredita que vai ter de investigar o assassinato de Pedro. E Johanna onde estará?


Johanna olha para os outros vídeos na pasta. Tenta ver um com a data do dia se supunha ser o do assassinato do homem encontrado no armazém fechado perto do porto. Não consegue. Uma caixa de diálogo pede uma palavra passe e impede que o vídeo corra. A pasta contém mais cinco vídeos e todos estão protegidos da mesma forma. Tenta usar o seu nome e o nome da mãe de Pedro, sem sucesso. Dá uma pancada no tampo da secretária, tentando descarregar a frustração. Levanta-se da secretária e olha em volta. “Quem é que te matou Pedro? E porquê?”, são as dúvidas que lhe assaltam o espírito. Continua a perguntar como que esperando que Pedro pudesse responder: ”O que te fez ir àquele armazém?”. Passeia de um lado para o outro à frente da secretária. Recorda uma conversa que tivera com Pedro depois de um dos telefonemas:

- Se esse palhaço cometer o erro de se deixar localizar, eu mato-o!
- Que violência Pedro… prefiro que o apanhemos.
- Há pessoas que só entendem uma linguagem…
- Pegando no que dizes, não seria melhor criar condições para que lhe fizessem o que fez aos outros.
- … mas que perversa que tu estás… mas temo que se não fores ainda mais perversa, e quero com isto dizer considerares a hipótese de o incapacitar, ele não perderia uma luta.
- Talvez tenhas razão…


De repente ouve uma voz metálica dizer “ sequência de auto destruição iniciada”. Na parede aparece um relógio em contagem decrescente. Começou em cinco minutos. Pega no papel que estava no tampo da secretária e dirige-se para a porta mas não há forma de abrir. Bate com os punhos na porta. Olha em volta tentando manter alguma calma. Sem saber como uma porta abre-se na parede do lado esquerdo da sala. Corre para ela. Entra assim noutra sala repleta de armas. Ao fundo por trás de uma vitrine com um fato de aspecto “espacial” abre-se uma porta que parece ser de um elevador. Corre para a porta aberta. As portas fecham-se atrás de si e começa a descer. Em trinta segundos, que lhe parecem uma eternidade, está na garagem. Olha em volta, não parece haver porta! Decide entrar no Jeep Wrangler, quando ouve “dois minutos”. Assim que entra no carro uma parede começa abrir-se como se de uma porta se tratasse. O carro tem a chave na ignição. Liga-o e arranca em direcção à porta que se abrira. Sai para uma rua estreita. Pára antes do primeiro cruzamento. Está a uma distância que considera segura. Olha para trás e assiste ao prédio a desmoronar-se como um castelo de cartas. Olha para o tablier. Há um relógio em contagem decrescente com um minuto. Sai do carro a correr. Vai em direcção ao seu carro. A explosão do Jeep quase a faz cair. Entra no seu carro e arranca.


- Chamaste Francisco?
- Sim Detective?
- O que é isso à tua frente?
- É a razão pela qual o chamei.
- Não me digas que essa bolacha é o telemóvel do Pedro?
- Bem…
- O que é que tu fizeste?
- Eu não fiz nada!… isto é, apenas o tentei conectar ao computador…


(continua)


FATifer

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

XII

Johanna começou por procurar nos menus do programa de imagem por alguma indicação de alguma pasta onde pudessem estar vídeos mas não encontrou. Minimizou o programa e olho o ecrã em busca de algo que pudesse parecer relacionado. “Para quê usar uma câmara sem guardar as imagens?”, perguntava-se enquanto procurava pelo ecrã. Uma pasta parece piscar. Entra na pasta. Vídeos. O contentamento de parecer ter encontrado o que procurava deixa para segundo plano a estranheza de ter parecido ser encaminhada a tal. Verifica as datas o último tem a data do dia anterior. Abre o ficheiro. Começa por ver imagens do interior de um automóvel. Olha as imagens que vão passando. O vídeo parece não ser em tempo real, mais parecendo um conjunto de imagens espaçadas no tempo, como se fosse uma câmara de vigilância. Começa a reconhecer pontos do caminho para o armazém. De repente a imagem abana violentamente e o vídeo passa a ser em tempo real. O carro parece ter recebido uma violenta pancada por trás e depois está a sofrer pancadas de ambos os lados por parte de dois SUVs enormes. Vê um braço e uma mão tirar uma uzi de um saco no banco do passageiro. Uma rajada a ser disparada na direcção do condutor do SUV à direita do carro. A uzi muda de mão e o alvo passa ser o SUV à direita. Duas rajadas mais para baixo deverão ter inutilizado os pneus pois o segundo SUV também desaparece. O carro acelera e o vídeo volta a ser em modo vigilância. De repente ouve-se um som de outro motor. Uma moto de alta cilindrada aparece à frente do carro e o pendura dispara na direcção do carro. A uzi volta à acção, primeiro para retirar os restos do para-brisas depois para devolver fogo. Vê-se a sobra da moto a desaparecer na valeta tudo fica escuro sem os faróis. Vê-se uma mão a retirar do saco o que parecem ser óculos de visão nocturna. O vídeo volta a modo vigilância mas pouco se vê, pois quase não há iluminação na estrada. O resto do caminho até ao armazém é feito sem mais “interrupções”. Finalmente o carro pára. Mal se distingue o que parece ser o armazém que Johanna demora a reconhecer, por aparecer da perspetiva oposta à que ela teve.



- Detective Martinho?
- Sim Vieira?
- Quando movemos o corpo encontrámos algo que pode ser relevante.
- O quê Vieira?
- Uns óculos de visão nocturna.
- Ouviu isto Tenente? Está explicado como conseguiu chegar até a aqui sem faróis.
- Cheio de recursos este homem, sem dúvida.
- Obrigado Vieira.
- De nada Detective. Vamos metê-lo no saco.
- ok, já passo por aí para ver os óculos.


Martinho e Martins encaminham-se de volta ao interior do armazém.


Johanna sente a respiração alterada. Embora escura, a imagem permite perceber que tendo dado poucos passos depois de ter saído do carro Pedro foi atingido de raspão no braço esquerdo por algo que não se vê. Apenas se ouve algo a passar e depois a mão direita de Pedro ensanguentada após ter tocado no braço esquerdo. Vê-se uma porta do armazém que Pedro força para entrar. Dentro do armazém está ainda mais escuro. Pouco se vê e quase nada se ouve. Pedro começa a explorar o rés-do-chão, cuidadosamente. Quando chega às escadas hesita. Sobe cautelosamente. O primeiro andar parece ainda mais escuro. Vai avançando não se ouve nada a não se a sua respiração e os seu passos. De repente ouve-se o som que se ouvira na rua mas agora multiplicado. Pedro cai de joelhos e começa a disparar as metralhadoras que lhe aparecem nas mãos. Despeja os clips, disparando em todas as direcções. Os clarões dos disparos param. A respiração é quase ofegante. De repente um abanão, parece um golpe violento no peito. Vê-se o que parece uma lança. Empunhando-a um vulto negro. Ouve-se o grito de dor de Pedro enquanto a lança parece ser empurrada ainda mais para o interior do seu peito. O vulto retira a lança e desaparece. Pedro cai. Retira a pistola e dispara dois tiros na direcção em que se vira o vulto. Larga a arma. Com visível dificuldade retira um papel e uma caneta e começa a escrever. Johanna reconhece o bilhete que está agora na secretária à sua frente. Vê a mão esquerda colocá-lo no bolso direito do colete onde o tinha encontrado. Vê depois a mensagem que recebera a ser escrita. Recorda o telefonema vendo-o agora de outra perspetiva. Não consegue evitar as lágrimas quando vê o telemóvel a cair ouvindo a sua voz a chamar por Pedro. O vídeo acaba.


(continua)


FATifer

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

XI

Johanna olha as fotos. Reconhece fotos das vítimas do último caso que investigara com Pedro e espanta-se ao ver as fotos do caso actual. “Como é que Pedro teria tido acesso a elas?”, pensa. Não sabia qual era a ocupação actual de Pedro mas tinha ido ter com eles à cena do crime... Continua a procurar. Se Pedro lhe tinha dado acesso a esta informação algo de relevante ela deveria conter. Quem sabe, talvez até pistas quanto ao seu assassino! Por momentos, recorda a imagem do seu corpo inanimado e duas lágrimas escorrem-lhe pelas faces. Tenta recompor-se investigando o conteúdo de uma das pastas intitulada “Shinigami”. Depara-se com um conjunto de imagens de corpos em avançado estado de decomposição que lhe fazem lembrar as imagens que Martinho lhe tinha mostrado daquele homem encontrado num beco. Lembra-se das primeiras palavras que alguma vez ouvira Pedro dizer: “…não há coincidências!”. Por momentos permite-se recordar a cena.

Estava no gabinete do director da esquadra a apresentar-se ao serviço no dia em que havia sido promovida a detective. Contava como no dia anterior tinha salvo uma senhora de ser atropelada por um carro e Pedro entra na sala

- Johanna McGill, Pedro Castro, o seu parceiro.
- Que coincidência, o apelido da senhora que lhe contava também era Castro!
- … não há coincidências! Foi a minha mãe que a Johanna salvou e por isso solicitei que fosse minha parceira.

Johanna não respondera. Correspondera apenas ao aperto de mão de Pedro, tendo ficado impressionada com a firmeza do mesmo.


Muda de pasta. Agora está a olhar para um conjunto de fotos de vários prédios com ar abandonado em várias áreas na cidade. Fecha a pasta. Um “icon” chama-lhe a atenção. Carrega nele e fica a ver imagens de vídeo que lhe parecem algo familiares. Parecem ser em directo. Quando vê a cara de Vieira as suas dúvidas dissipam-se, o que está a ver é a imagem em tempo real de uma câmara que o Pedro tinha no colete que tinha vestido! Pega no telemóvel e liga a Martinho.

- Sim? Johanna?
- Sim, sou eu Martinho, estás no armazém?
- Sim.
- Vai até junto ao corpo do Pedro, por favor.
- Mas Johanna… como assim?
- Vai até ao pé da equipe forense por favor, Martinho!
- Ok, estou a ir mas…
- Não é possível!!
- O quê? O que é que não é possível?
- Estou a ver-te Marinho!
- Estás a ver-me? Agora é que me baralhaste por completo!
- Olha para o ombro direito do Pedro. Vês algo que possa parecer-se com uma câmara?
- Vejo uma bolinha mas estás a dizer que isto é uma câmara e que me estás a ver através dela, é isso?
- Sim… é isso mesmo!
- Johanna… que conversa é essa? Onde é que tu estás?
- Agora não te posso explicar mas se ele tem uma câmara pode ser que tenha gravado o que aconteceu… vou procurar… adeus Martinho, eu volto a ligar.
- O quê? Johanna?!


Johanna havia desligado e Martinho não tinha percebido metade do que acontecera. Vieira olha-o como que esperando que ele explicasse o que estava ali a fazer.

- Vieira, achas que isto pode ser uma câmara?
- Pode ser…
- A Johanna disse que me estava a ver…
- Se a menina disse…
- Ok Vieira, desculpe a interrupção. Continuem mas tenham cuidado com esse colete, pode ser que tenha outras surpresas.

Martinho volta a afastar-se ainda a tentar perceber a conversa com Johanna.

- Tenente Martins.
- Sim detective?
- Mostre-me lá esse Trans Am, por favor.
- Venha comigo Detective.

Desceram por outra escadaria mais perto das traseiras do armazém. Nela estava um elemento da equipa forense a documentar uma marca fresca de sangue numa das paredes. Chegado ao rés-do-chão saíram por uma porta nas traseiras, a qual também tinha uma marca de sangue. O carro estava, como descrito, num estado que deixaria qualquer amante de automóveis entristecido. Parecia que não havia parte carroceria que não tivesse uma amolgadela. Os faróis estavam partidos. De noite como teria chegado até ali?


(continua)


FATifer

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

X

Duas horas e meia depois do telefonema de Johanna, já com o sol a querer nascer, Martinho chega ao armazém com os reforços. Olha aquele edifício no meio do nada e pergunta-se porque é que Johanna o fizera vir até aqui? Metade da equipa táctica começa a estabelecer um perímetro de segurança enquanto os restantes elementos se separam em equipas de dois elementos e iniciam a busca dentro do edifício. Os elementos da equipa forense vão preparando a material pois, se foram chamados, alguma coisa haverá para fazer em breve. Martinho olha o telemóvel, como esperando que toque.


Johanna chega finalmente à morada indicada no papel. É um prédio antigo quase sem janelas. Dirige-se à porta de entrada que é reentrada. A porta não tem fechadura. Recorda-se das instruções no papel. Vira-se para o lado esquerdo coloca os dois pés lado a lado no seguimento da ombreira da porta e vê aparecer um painel numérico na parede à sua frente. Digita o código que consulta nas instruções e ouve a porta abrir. Assim que se move o painel volta a desaparecer, como que engolido pela parede. Dirige-se para a porta e entra. A porta fecha-se atrás dela. Observa o hall onde entrou. Está na penumbra, a pouca luz que existe vem dos contornos do tecto. Segue em frente, em direcção à única porta da divisão, à excepção daquela por onde entrou. Ao chegar perto a porta abre-se, deslizando para dentro da parede do lado esquerdo. Hesita por instantes mas decide entrar. Está no vértice de um corredor em “L”. Em frente, a cerca de um metro e meio, tem um lanço de escadas que sobe. Para a esquerda, sensivelmente à mesma distância, uma porta semelhante à por onde tinha entrado e que também se fechara atrás dela. Sobe até ao topo das escadas onde encontra outra porta fechada. Ao posar os dois pés no pequeno patamar vê um feixe de luz azul “varrê-la”. Do lado direito da porta aparece um painel alfa numérico. Volta a consultar as instruções para saber que código deve introduzir. A porta, como a anterior, desliza para a esquerda desaparecendo dentro da parede. Entra numa sala apenas iluminada pelo feixe de luz que contorna o tecto. A sala está vazia à exepção de uma secretária e uma cadeira com aspecto de “cadeira de executivo”. Senta-se na cadeira e aparece um teclado virtual no tampo da secretária e a parede à sua frente parece “acender-se”, ficando um cursor a piscar. Volta a consultar as instruções. Apenas diz “o login és tu”. Esboça um ligeiro sorriso, que não apaga a tristeza das suas feições, enquanto digita o seu nome. A última linhas das instruções indica “a password é a minha mãe”. Digita o nome da mãe de Pedro e a parede enche-se de imagens e atalhos para pastas.


- Perímetro de segurança garantido.
- Rés-do-chão revistado e em segurança. Prosseguindo para o primeiro andar.
- Muito bem Tenente Martins, mantenha-me informado.


- Detective acho que vai querer vir aqui e traga a equipa forense consigo.
- Ok, vamos a caminho.

Martinho entra no armazém pela mesma porta que Johanna usara. Com mais luz a vir do exterior era possível ver o espaço e o estado de abandono do mesmo. Sobem ao primeiro andar. Contrariamente ao rés-do-chão no primeiro andar os taipais que cobriam as janelas ainda estavam mais ou menos intactos, ou melhor, estariam não fosse estarem agora cravejados de buracos de bala. A luz a entrar por essa multitude de buracos dava à cena do crime um ar ainda mais surreal. Martinho estremeceu ao se aperceber que era Pedro que jazia ali no meio daquela sala. Pensou em Johanna e em como se teria sentido ao ver aquela cena. Vê o golpe profundo que Pedro tem no peito. Olha as metralhadoras a seu lado. A julgar pelos buracos de bala, os carregadores estarão vazios, pensa. A equipa forense começa a documentar a cena do crime e Pedro afasta-se, vindo ao encontro do Tenente Martins.

- Tenente, alguma coisa a assinalar da busca anteriormente a terem achado o corpo?
- Sim Detective, nas traseiras do armazém está um Pontiac Trans Am todo “feito num oito”. Um desperdício!
- Alguma coisa dentro do carro?
- Numa busca inicial apenas encontrámos um saco com duas facas, três granadas e uma pistola. O que leva a suspeitar que o carro seja da vítima.
- Sim vamos ver se a equipa forense encontra mais alguma coisa.
- Detective, se me permitir a pergunta, conhecia a vítima?
- Sim Tenente, era o antigo parceiro da minha colega Johanna McGill.
- Não foi ela que reportou este incidente?
- Sim…


Martinho fica a olhar para o vazio… “Johanna onde estás tu?”… e volta a olhar para o telemóvel.


(continua)

FATifer

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

IX

Depois do almoço voltam ao escritório os dois e sentam-se cada um à sua secretária.

- Johanna…
- Sim Martinho…
- O teu “amigo” matou quatro homens antes de desaparecer, não foi?
- Sim.
- E desapareceu?
- Sim…. e não. Um mês depois do último crime começaram os telefonemas.
- Pois mas nunca conseguiste ligar uma coisa à outra.
- Martinho pareces o Pedro a falar! Mas sim, não temos qualquer prova concreta que quem fazia os telefonemas fosse o autor dos crimes.
- Não tem lógica…
- O que é que “não tem lógica”, Martinho?
- Ele mata quatro homens, pelo menos três dos quais apenas com os próprios punhos, depois começa a telefonar-te durante 6 meses e depois desaparece. E agora aparece morto daquela forma? Não tem lógica…
- Martinho… há sempre uma lógica… neste caso ainda não percebemos qual é.
- Talvez porque não tem lógica…
- Sim, é estranho. Pouco plausível até… mas é o que temos.

Martinho suspira. Recosta-se na cadeira e olha para o quadro deste caso. Johanna olha-o com um ar quase maternal e deixa escapar um leve sorriso.
O resto da tarde decorre lentamente sem novidades.


Johanna está recostada no sofá. A voz de Billie Holiday em “I’m a Fool to Want You” enche a sala. Olha para dentro do copo que tem nas mãos enquanto faz balouçar o líquido com movimentos lentos mas ritmados. Quando se preparava para beber o último gole do pouco bourbon que tinha colocado naquele copo, o telemóvel toca. Aquele toque. Larga o copo e agarra o telemóvel, atendendo a chamada o mais depressa que consegue.
- Pedro?!
- … Johanna…
- Pedro que tens? O que se passa?
- … Johanna… ouve… vê a mensagem… as coordenadas GPS… vem aqui ter… lembra-te… bolso direito…
- Pedro! Que conversa é essa?
- … Adeus Johanna… não consegui, desculpa-me…
- Pedro! Pedro!...

Johanna ouve o telemóvel do outro lado da chamada a cair e fica a ouvir um respirar cada vez mais ténue até que só silencio se ouve. Corre para o quarto veste-se apressadamente. Pega nas chaves do carro e no telemóvel e sai a correr deixando a kitty a olhar para porta, à espera da sua festa na cabeça. Já no carro programa as coordenadas GPS da mensagem de Pedro e espera por direcções. Calça as luvas de cabedal que gosta de usar quando conduz. “Isto é no meio do nada!”, exclama enquanto a arranca a toda a velocidade. A voz mecânica do GPS vai-lhe dando instruções que segue, conduzindo “como uma doida”. Por fim chega ao destino, um armazém abandonado no meio do nada a cento e cinquenta quilómetros dos arredores da cidade. Sai do carro. Saca da pistola que tinha ao cinto e da lanterna. Procura uma entrada. Ao longe uma porta entreaberta bate impelida pela brisa noturna. Dirige-se à porta e entra. A vontade dela é gritar por Pedro mas consegue conter-se. Avança cautelosamente, inspecionando o espaço. O armazém parece estar abandonado há muito. Para qualquer lado que aponte a lanterna só vê lixo e pó. Vai avançando encontra umas escadas. Sobe ao primeiro andar. A sala que encontra é ampla no centro parece ver uma luz ténue. Aponta a lanterna para ela e vê Pedro deitado no chão. Corre para ele. Quando o alcança, sente-o frio. Mesmo assim procura no pescoço um sinal de pulsação. Vê os seus olhos abertos. A cara sem expressão. As lágrimas começam a dificultar-lhe a visão. Limpa-as com as costas da mão esquerda e observa-o. O corpo está cheio de pequenos cortes e no meio do peito está um golpe profundo. Olha em volta. As paredes estão cravejadas de buracos de bala. Olha-o de novo e lembra-se. Abre o bolso que ele tem no lado direito do colete e encontra um papel ensanguentado. Nele escrito, com uma letra irregular, está uma morada seguida de um conjunto de instruções e uma palavra mais abaixo. Fica a olhar este papel por instantes. Ainda ajoelhada a seu lado pega no telemóvel e liga.

- Martinho?
- …Hã… Johanna?
- Desculpa ligar a esta hora. Vou enviar-te as coordenadas GPS de uma localização. Dirige-te para ela com uma equipa forense e é melhor trazeres uma equipa táctica, pelo seguro. Vou seguir uma pista depois volto a ligar-te.


Desligou o telefone sem esperar para ouvir a resposta de Martinho. Foi às mensagens e reenviou a mensagem de Pedro com as coordenadas GPS daquele local. Voltou a olhar para Pedro. A vontade era beijá-lo, dizer adeus… mas o espírito de detective fala mais alto, não deve contaminar mais a cena do crime. Levanta-se. Olha-o por uma última vez. Uma última lágrima escorre pela face esquerda. A sua expressão muda. Dirige-se à escada para descer em direcção ao carro. Destino, a morada escrita naquele papel ensanguentado.


(continua)

FATifer

domingo, 17 de janeiro de 2016

VIII

Algures numa sala escura uma nesga de luz ilumina uma lâmina empunhada por um vulto negro. Parece que o sabre japonês dança no ar como que levitando em movimentos, ora rápidos ora mais lentos. Num silêncio que parece absoluto, apenas se houve o som da lâmina a cortar o ar. Por fim a lâmina desaparece e tudo fica escuro, mal se distingue o vulto que se move em direcção à porta. Num corredor iluminado por uma janela alta num dos topos onde a luz passa com alguma dificuldade pelo reticulado de vidros enegrecidos pelo tempo, distingue-se uma figura envergando um kimono negro movendo-se pausadamente. Depois de alguns passos vira-se e faz deslizar uma porta de correr. Entra numa sala pequena e dirige-se a um suporte de madeira onde deposita, com uma vénia, o sabre que levava à cintura. Dá dois passos atrás, ajoelha-se e senta-se nos tornozelos, com o tronco recto, permanecendo imóvel nesta posição.


Johanna e Martinho voltam à sala de observação contígua à sala de interrogação número dois. Olham aquele homem através do vidro/espelho.

- O que te parece?
- Parece-me que está a dizer a verdade…
- Mais um punhado de nada!
- Calma Johanna. Aprende-se sempre alguma coisa.
- Como por exemplo?
- Estamos a lidar com alguém, cuidadoso, metódico e com recursos.
- Ah… a partir da cena do crime no armazém não tinhas já concluído isso?
- Compreendo a tua frustração mas não sejas assim tão pessimista! Esta entrevista não foi uma perda de tempo, vais ver…
- Ficarei contente se te vier a dar razão… por agora acho que podemos deixar ir este pobre coitado.

Johanna regressa à secretária. Senta-se, roda a cadeira e fica a olhar para o quadro construído com os elementos deste caso. As fotos da cena do crime no armazém. O anel. O padrão geométrico. Levanta-se a e adiciona ao quadro a foto do sem abrigo – Vítor Andrade - que tinha nas mãos. Fica a olhar para o quadro.

- Chegaram os resultados da autópsia.
- E então, está no sistema?
- Não, não foi encontrado nenhum registo sequer semelhante.
- Como já esperava…
- Os resultados das análises toxicológicas também não revelam nada de incomum. Algum álcool no sague mas nada de drogas ou outras substância estranhas. O conteúdo do estomago revela que a última refeição terá sido um hamburger, muito mal mastigado por sinal.
- Eles bem dizem que essas coisas matam-te…
- Um pouco de humor! Mas que bem!
- … é tudo o que me resta. Como esperava a equipa forense não encontrou nem um vestígio de impressão digital ou qualquer outra marca na caixa ou no anel.
- Pois, também vi isso.

Johana levanta-se e fica olhar para a foto da vítima desfigurada, que está colocada ao lado da foto da cena do crime no quadro.

- Achas que é ele?
- Como disse o Pedro, podemos nunca ter a certeza.
- Sim sem mais provas está complicado.

Martinho senta-se à secretária e faz longin no seu terminal.

- Johanna, vem ver isto…
- O que foi?
- Tinha deixado indicação para ser notificado de caso algo “estranho” aparecesse em sistema…
- Sim e?...
- Ora vê, foi encontrado um corpo em avançado estado de decomposição num beco a três quarteirões do armazém.
- E o que isso tem de extraordinário?
 - Diz aqui que a vítima, um homem de 42 anos, só foi participado como desaparecido ontem e que há testemunhas que afirmam terem-no visto vivo há três dias atrás.
- E está assim tão mau o corpo?
- Vê a foto…
- Sim, um corpo não fica a assim num dia ou mesmo em três…
- Deixa ver se já está disponível o relatório da autópsia…
- Parece que não… mas fiquei curiosa. Regista-te para seres notificado quando estiver disponível, para depois analisarmos.
- Feito!
- E quanto ao nosso caso. Deu algum resultado a pesquisa que te pedi sobre o armazém?
- … nada de especial, o costume, companhia compra companhia que compra companhia, que abre falência, que os bens ficam para os bancos… não encontrei nada de suspeito nas transacções.
- E que tal irmos almoçar?
- Parece-me bem!



Pedro está sentado à secretária a ler o relatório da autópsia elaborado pelo Dr. Fernandes. Recebe um aviso de mensagem no canto do ecrã. Vai ver. O seu semblante torna-se mais grave à medida que lê. Levanta-se com um ar decidido. Entra na “sala das armas” e vai escolhendo. Coloca tudo o que não encaixa no fato paramilitar que já tinha vestido num saco. Desce até ao piso inferior num elevador. Olha os veículos que tem à disposição, como que indeciso qual escolher. Acaba por optar pelo Pontiac Trans Am. Entra colocando o saco no banco do pendura. O som do motor ainda parece ecoar naquele espaço quando os pneus já chiam na primeira curva.

  
(continua)

FATifer 

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

VII

Johanna voltou a sentar-se à secretária. Agarra no rato e selecciona uma pasta. Abre um documento e começa a ler. Quase sem se dar conta não está a ler mas a relembrar…

O som estridente do telefone interrompe-os…

- Sim… o quê? Vamos já para aí, não deixem que mexam em nada!
Temos outro e este ainda está quente!

Chegados à cena do crime os dois têm a mesma sensação de déjá vu habitual neste caso…

- Deve ser impressão minha mas já vi isto antes…
- ah… ah, é melhor não considerares o stand-up como carreira alternativa…
- … ora bolas, achas? Eu que estava a pensar…
- Estás muito espirituosa hoje… deixa-te de coisas e vê se encontras algo que ainda não vimos, um ínfimo indício de algo que seja!
- … uma pista queres dizer…
- Isso seria bom demais…
- Detectives! … vejam…

Um elemento da equipa forense chama-os enquanto analisa um ligeiro contorno do que parece ser uma sola de bota nas bordas da poça de sangue que escorre da cabeça desfigurada da vítima.

- …Não é muito mas, não dando para determinar marca ou modelo, pode permitir extrapolar o número que calça…
- Vês, isto é um indício!… bom trabalho Sérgio.
- Sim. Mas aqui há algo diferente…
- Referes-te ao facto de ser asiático?
- Também mas não só… repara… a perna e o braço…
- Hum, tens razão Johana… parece que há golpes de algo. Isto não foi feito só com as mãos como nos outros casos.
- Vês, uma pista!
- … hum… talvez tenhas razão… deixa ver o que diz o Dr. Fernandes.

Dão mais uma vista de olhos e afastam-se da cena do crime deixando a equipa forense concluir o seu trabalho. Pedro acende um cigarro e sorri face á expressão de desaprovação de Johanna, já sabe que vai ter de o apagar antes de entrar no carro.


- Johanna!
- Sim Martinho…
- Localizámos o sem abrigo que enviou a caixa. Está na sala de interrogação número dois.
- Vamos!

Antes de entrar na sala olham o homem pelo vidro que para ele é um espelho. Coincide inteiramente com a descrição à excepção dos óculos escuros. Entram os dois na sala.

- Sr. Vítor Andrade, sabe porque está aqui?
- …por causa da caixa…
- Então conte-nos o que aconteceu…
- Como disse ao agente …estava a andar e depois de um cruzamento encontrei uma caixa no chão com dois envelopes em cima. Abri o primeiro envelope e vi uma folha dobrada e algum dinheiro. Desdobrei a folha e vi que continha instruções para entregar a caixa na agência de transportes na esquina seguinte. Abri o outro envelope e tinha mais dinheiro. Quando me preparava para pegar na caixa senti uma arma encostada às minhas costas. Ouvi de seguida uma voz metálica que apenas disse que, se seguisse as instruções poderia ficar com o dinheiro do segundo envelope. Caso não as seguisse seria a última coisa que faria na vida. Deixei de sentir a arma virei-me mas não vi ninguém. Voltei a virar-me, peguei na caixa e segui as instruções.
- … e depois?
- Depois de entregar a caixa na agência conseguindo convencer o empregado a aceitar o envio sem remetente com o dinheiro extra do primeiro envelope, tal como instruído, deixei a agência. Só aí contei o dinheiro do segundo envelope.
- O que fez ao dinheiro?
- Gastei-o em comida e nestas botas que as minhas estavam rotas.
- A caixa já tinha o endereço do destinatário?
- Sim… eu não fiz nada de mal!…
- Não, não fez… tenha calma, apenas pretendemos ver se nos consegue ajudar a encontrar quem mandou a caixa.
- …não sei mais nada!
- Já disse para ter calma.

Levantam-se ambos e saem da sala.


(continua)


FATifer