Mostrar mensagens com a etiqueta histórias e contos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta histórias e contos. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 29 de março de 2016

XXX


Katerina e Yuri conhecem os obstáculos e a melhor forma de os ultrapassar, Johanna esforça-se para os acompanhar.

- Loirinha, então aguentas-te?
- Até ver…
- Katerina concentra-te, pode haver surpresas.

Yuri acabara avisar e um dardo atravessa o corredor onde iam, mesmo à frente deles.

- De onde veio aquilo?
- Concentra-te, não te esqueças que ele sabe mais deste edifício do que nós.

Continuam a ultrapassar os obstáculos com maior ou menor dificuldade. Chegam ao fim das provas com pouco mais que uns arranhões, a maior parte dos quais sofridos por Johanna. Katerina permanece ilesa, em boa medida devido ao fato que enverga.


- Muito bem… aqui nos tem!
- …

O vulto de negro não responde nem mostra qualquer reacção, permanecendo sentado. Katerina dá dois passos em frente. Ainda estará a uns cinco passos de distância. Yuri e Johanna permanecem à entrada do tatami.

- Então não diz nada? Tanta insistência para nos ter aqui…
- …
- Já chega! Não vou permitir que continue a fazer pouco de mim na minha casa!!
- Katerina! Não!!

Katerina dirige-se à parede do lado direito, pega no sabre japonês que está a meio de um grupo de três pendurado num suporte levemente ornamentado. Desembainha-o e corre em direcção ao centro do tatami. Estando a dois passos do centro, disfere um golpe com o sabre na direcção do vulto que permanecera imóvel até ali. Instantaneamente Katerina vê-se dois passos além do centro do tatami, despojada do sabre japonês e de costas para o inimigo. Vira-se o mais rápido que consegue. O vulto continua na mesma posição. Parece não se ter mexido, no entanto o sabre japonês repousa à sua frente.

- Mas o que vem a ser isto?!

Katerina faz menção de recuperar o sabre japonês e ouve uma voz grave numa entoação pausada:

- Se o fizeres nem esse teu fato tem salva, desta vez.

Katerina aborta o movimento e olha primeiro aquele homem sentado à sua frente e depois fita Yuri que lhe devolve um olhar de repreensão.

- Shinigami… se chegou a nossa hora porquê tanto suspense?

O homem de negro eleva-se e num gesto fluído arremessa um kunai na direcção da cabeça de Yuri acertando-lhe entre os olhos. O corpo de Yuri cai inanimado. Johanna dá um pequeno passo atrás e olha-o no chão depois olha para aquele homem todo de negro e tenta disfarçar o facto de estar a tremer.

- Não!!!

Katerina gritara mas desaparecera de vista.

- Conseguiram que o fato resultasse mas se pensas que é isso que te salva… não preciso de te ver… eu disse que não tentasses!

O vulto de negro estendo o braço direito num gesto rápido e poderoso e mantém-no esticado. Aparenta estar a segurar algo mas Johanna nada vê. Mexe a sua mão esquerda que aparenta estar a ser contrariada no movimento. Faz um gesto brusca para baixo e, de repente, aparece Katerina. É ela que ele segura pelo pescoço. Tem o fato rasgado à frente e aparenta estar a ficar com falta de ar.

- Pare, por favor. Já chega…
- Paro? Esta é igual à mãe não conhece outra linguagem… achas que a mãe dela ouviu as suplicas da tua mãe?
- Não sei mas vai matá-la pelo que a mãe dela fez?
- Porque és minha neta e só por isso eu vou-te explicar. Não, não vou matá-la pelo que a mãe dela fez à tua, embora se soubesses o que foi até tu terias vontade de o fazer. Vou matá-la por tudo o que ela fez neste mundo. Vou matá-la porque é filha do pai dela, infelizmente teu também. Vou matá-la porque me apetece…

Num gesto desesperado Katerina tenta alcançar, com a mão direita, uma lâmina que tem escondida no antebraço esquerdo, enquanto a mão esquerda tenta contrariar a força daquela mão que a sufoca.

- Queres isto? Então toma!

O homem de negro retirara a lâmina do antebraço de Katerina cravara-a no seu peito e lançara–la em direcção à parede com uma violência tal que ficara espetada numa lança.

- Acabou?...
- Não minha neta, faltas tu…
- Eu? Mas porquê?
- Porque sim… porque és filha do teu pai e não posso permitir que os genes dele perdurem.
- Yuri tinha razão…
- Não faças essa cara… Não te vou conseguir explicar, nem sei se quero. Sou assim, porque posso. Farei o que faço até que alguém me impeça. E só há uma maneira de me impedir, fazer-me a mim o que eu faço. Não há um propósito maior, uma ideologia. Apenas ajo consoante o que me parece bem, só para não dizer logo: porque me apetece. Monstro? Para alguns talvez. Para outros apenas livre. Só porque aceitaste todas as correntes que te impuseram, deverias conceber que poderá haver quem não esteja disposto a cumprir essas regras todas, mesmo que as aches “obrigatórias”. Faço o que muitos apenas pensam…


Fim



FATifer

sexta-feira, 18 de março de 2016

XXIX

Katerina tem a sensação de ter ouvido algo na outra extremidade do corredor. Hesita por momentos, antes de se virar. Olha e vê Yuri e Johanna.

- Não pode ser!
- O que foi?
- É a Katerina.
- Como podes ter a certeza, naquele fato?
- Eu conheço aquele fato e conheço a Katerina.
- O que fazemos?
- Vamos ter com ela, nada mais podemos fazer…

Johanna tenta abrir a porta por onde entraram e não consegue. Tenta o elevador e não obtém resposta nos comandos. Contrariada junta-se a Yuri que segue na direcção de Katerina. Percorrem o corredor num passo moderado, sempre olhando para Katerina debaixo daquele pórtico vermelho. Para espanto de Yuri ela mantém-se imóvel aguardando que eles a alcancem. Só quando o fazem, retira a máscara do fato e fita-os.

- A que devo a honra? Pensei que tinhas fugido com medo e para salvar a loirinha.
- Teria sido assim mas…
- Mas?… não me digas que ficaste com remorsos de me teres abandonado?
-… sabes que não, minha menina. Digamos que estamos aqui porque não nos foi dada alternativa.
- Como assim?
- Ele controla o complexo. Suspeito que agora estará em “fecho total”. Para além disso fez-nos o “convite” de vir até aqui e certificou-se que não recusaríamos.
- Então é verdade que foi ele que contruiu tudo isto?
- Sim Katerina.
- … e tu loirinha o que me dizes, estás a gostar?
(Johanna olha para Katerina com um expressão algo desconcertada)
- Sim estou a adorar a hospitalidade, as vistas, o ambiente… estou ansiosa por conhecer o visitante mistério que mais parece o anfitrião.
- Ela até tem piada Yuri. Pode ser que ainda te dê uma hipótese de viver, sempre pensei como seria ter tido irmãos.
- Pelo que diz este senhor não vamos ter muito tempo para reuniões familiares.
- O Yuri dá-lhe demasiado crédito. É apenas um homem.
- Pois mas se vestiste esse fato… é porque dás algum crédito à minha opinião…
- Se lhe vou conceder a honra de me enfrentar mas vale ter os trunfos que possa do meu lado.
- Não o subestimes Katerina, tu nunca enfrentaste ninguém como ele.
- Estás a dizer que ele é melhor que tu?
- Melhor que eu? Devias ter visto como matou o teu pai!
- Mas isso foi há muitos anos atrás.
- Sim… mas… não o subestimes…
- Chega de conversas!

Katerina vira-se para a porta e coloca a máscara. As portas abrem-se. Johanna olha para Yuri que não parece surpreendido. Depois olha para Katerina que está a olhar fixamente para as portas abertas à sua frente. Katerina dirige-se para a entrada. Yuri e depois Johanna seguem-na, esta última relutantemente. A sala está quase totalmente escura. Dois archotes acesos no topo de duas colunas a uns três metros das portas fornecem a única luz. Avançam cautelosa mas decididamente. Assim que passam o comprimento das portas estas fecham-se com estrondo. Só Johanna olha para trás, Yuri e Katerina olham o espaço em frente na expectativa. Acendem-se archotes colocados na parede à volta de toda a sala. Johanna pode assim aperceber-se das dimensões da sala. O espaço é enorme. À frente deles, num plano mais baixo daquele em que se encontram, está o que parece ser uma pista labiríntica recheada de obstáculos. Há de tudo um pouco, desde lâminas enormes que balançam como pêndulos a rolos cobertos de espinhos. Muros que têm de ser escalados e fossos com líquidos fumegantes. Ao longe no mesmo plano que eles e para além de todos os obstáculos, vê-se um tatami. No meio deste, sentado numa posição de aparente meditação, está um vulto todo de negro.

- Isto é a tua sala de treino?!
- Sim loirinha, não gostas de desafios?
- Ela está a brincar? Vamos ultrapassar isto tudo para chegar ao pé de alguém que nos quer matar?
- Johanna, desculpa-me… falhei-te…
- Eu não saio daqui! Se ele me quer matar ele que me venha buscar…

Instantes despois de Johanna ter acabado de proferir a última frase, as colunas com os archotes ao pé deles começam a descer, parecendo ser engolidas pelo chão, e as paredes laterais da parte da sala onde eles estão começam a mover-se, aproximando-se.

- Estavas a dizer loirinha?


(continua)


FATifer

quarta-feira, 16 de março de 2016

XXVIII

Katerina, completamente vestida com aquele fato, dirige-se novamente para o hall da sua suite. Uma vez aí segue em direcção de uma das portas laterais, aquela que agora está à sua esquerda. A pequena sala onde entra é apenas uma passagem para o elevador todo em vidro para o qual entra de seguida. Desce apreciando o luar que as nuvens voltaram a deixar brilhar. Sai para um corredor comprido com vista para a mesma cascata por cima da qual passara para chegar à suite. Ao fundo está um pórtico vermelho, como um de um templo japonês e atrás dele um portão com duas grandes portas de madeira maciça. Katerina percorre o corredor desprezando a paisagem olhando fixamente o pórtico. Quando o alcança pára debaixo dele, diante da porta.


- Nunca conheci a minha mãe. Os meus pais adoptivos apenas me deram uma carta que seria dela e onde me pedia desculpa porque, se estava a ler aquelas linhas ela já não estava no mundo dos vivos.
- O meu irmão estava a seu lado quando ela a escreveu. Tinhas poucos dias de vida. Ela sabia que o que aconteceu era inevitável, já tinha sido uma dádiva teres nascido.
- Ela sofreu muito?
- É melhor que não te conte, ias querer matar a mãe de Katerina e ela já está morta.
- E o meu pai, porque é que não a impediu?
- Soube tarde demais… pode não te servir de conforto mas os homens que a mataram não sofreram menos quando ele os matou. Mas mudemos de assunto que isto é uma conversa para termos quando estivermos fora daqui.
- Pois bem… então e o que fazemos para isso? Mais alguma ideia?
- … estou a pensar…
- Este complexo não tem uma oficina?
- Tem mas é do outro lado da garagem. Temos que dar a volta…
- Vamos?
- Vamos… por aqui.

Yuri e Johanna voltam para trás, passam pela cozinha e por mais um conjunto de outras salas por onde já tinham passado. Descem ao rés-do-chão e contornam a escadaria e seguem por um corredor comprido. Ao fundo deste entram por uma porta de serviço. Ao contrário das outras salas, onde ao entrarem a sala se iluminava, a sala onde entram permanece às escuras, a única luz é da luminária por cima da porta, indicando a saída. Parece ser uma sala grande.

- Estamos na oficina?
- Sim mas não estou a gostar do facto de as luzes não terem acendido.
- Era o que ia perguntar.

Yuri dirige-se ao quadro eléctrico existente ao lado esquerdo da porta. Usa um punhal para se certificar que não está armadilhado e depois abre-o. No disjuntor que acenderia as luzes está pendurado um bilhete com uma mensagem breve numa letra desenhada:

“Estou à vossa espera na sala de treino de Katerina”

Yuri fecha o quadro eléctrico. A sala ilumina-se e podem ver que todas as ferramentas estão destruídas, parecem derretidas. Yuri olha para Johanna.

- A pergunta agora é: como queres morrer, às mãos dele ou a tentar fugir?
- … não sei porquê mas nenhuma das opções me agradam…
- Compreendo-te mas…

Johanna olha Yuri e dirige-se para a porta. Ao tentar abri-la esta não mexe. Volta a olhar para Yuri.

- Parece que ele respondeu por ti…
- Como assim?
- … se esta porta está fechada presumo que a única saída é por aquela ali. Curiosamente é também o caminho mais directo para o local que nos indicou.
- Não queres experimentar aquele portão?
- Não vejo que valha a pena o esforço. Ele dá para o acesso à rua pelo que estará fechado como todas as outras portas que tentámos antes…


Johanna dirige-se ao portão. Verifica que os comandos não respondem. Pega numa vassoura com cabo de madeira e encosta-a ao portão. Ouve-se um ligeiro zumbido e as cerdas da vassoura começam a fumegar. Larga a vassoura e olha para Yuri que a espera ao pé da porta que indicara. Caminha na direcção dele. Como Yuri previra a porta está aberta. Passam por ela para um corredor de serviço por onde seguem. A meio do percurso pelo corredor ouve-se água a correr.

- Que barulho é este?
- Estamos a passar por trás da cascata.
- Cascata? Ok…

Continuam a andar. Chegam ao fim do corredor. Abrem outra porta de serviço entram na extremidade de num corredor envidraçado. À sua esquerda um elevador. À sua direita todo um corredor e ao fundo um pórtico vermelho à frente de um portão com duas grandes portas de aspecto maciço. Debaixo do pórtico está um vulto parado, de costas para eles e virado para o portão.


(continua)


FATifer

domingo, 13 de março de 2016

XXVII

Katerina está no hall da sua suite. Tem três portas na parede à sua frente e outras duas, uma em cada uma das paredes laterais daquele espaço. Dirige-se à porta mais à direita das que tem em frente. Entra assim numa sala que mais parece um enorme guarda-fatos. Uma quantidade enorme de peças de roupa, sapatos e acessórios estão arrumados mas à vista e totalmente acessíveis. Dirige-se ao fundo da sala, a uma vitrine onde está um fato completo com botas e uma máscara que mais parece um capacete integral. Olha aquele fato e o seu olhar torna-se sombrio. Despe o fato de pele que tem vestido. Abre a vitrine, retira e veste o fato que contemplava.


- Vamos embora daqui?
- vamos…
- Então segue-me!
- ok…

Johanna, segue Yuri. Passam de sala em sala o mais rápido possível, para quem não abdica de algumas cautelas. Chegam a uma porta grande.

- Está fechada?!

Yuri dirige-se a um teclado numérico ao lado da porta e digita uma sequência de números. Nada acontece.

- Não pode ser! Ele não conseguiria… anda vamos!

Yuri pega na mão de Johanna e correm na direccão oposta à porta. Passam por mais uma quantidade de salas até chegarem a uma cozinha. Dirigem-se a uma porta com ar de porta de serviço. Yuri tenta abri-la mas também está fechada. Dirige-se a um elevador de serviço e este também não responde.

- Isto não está a acontecer! Grande…
- Estamos fechados?
- Começo a pensar que sim… estás a ver ali em cima da porta o orifício que permite a abertura de emergência das portas do elevador? Está tapado. Isso não é bom sinal, quer dizer que o complexo está “fechado”.
- Isso não soa bem…
- … pois… em teoria não há saída possível.
- E na prática?
- Estou a pensar…
- Não podemos partir uma janela, por exemplo?
- Não, são todas de vidro à prova de bala. As portas são todas de metal reforçado, mesmo as que parecem ou estão forradas de madeira. Aquele elevador, por exemplo, mesmo que conseguíssemos abrir as portas terá lasers a impedir a passagem.
- Estou a ver… alguém pensou em tudo.
- Pois… anda vamos experimentar outra coisa.

Yuri dirige-se para outra porta diferente da por onde entraram na cozinha e Johanna segue-o. Passam por uma copa. Seguem por um corredor. Depois de mais algumas portas, chegam a uma zona que parece ser um acesso a uma garagem. Yuri tenta abrir a porta, sem sucesso. Pelo vidro na porta vêem-se carros e motos.

- Pensei que esta porta pudesse estar aberta e conseguíssemos chegar à garagem.
- Pois ainda não entendi porque é que não estão todas as portas fechadas?
- Ele não quis fazer isso. Não quer alertar a Katerina.
- Como assim?
- Se colocasse o complexo em “fecho total” ela saberia que ele está controlar a situação por completo. Ele está a contar que ela continue a achar que ele é apenas um mosquito que pode esmagar facilmente. Assim ela será menos cuidadosa.
- Ele… ele quem?
- O meu argumento de há pouco perdeu força, não foi? O melhor é mesmo contar-te, pelo menos alguma coisa.
(Johanna responde com uma expressão facial/corporal de confirmação)
- Ele… digo “ele” porque não sei o seu nome. Acho que ninguém sabe. “Shinigami” é o que muitos usam quando se referem a ele.
(Johanna muda de expressão)
- Viste esse nome nos ficheiros do Pedro Castro, não foi?
- Foi… mas como sabe isso?
- Eu sei muita coisa. Como te dizia… não sei ao certo a sua idade. Sei que ele conhecia o pai de Katerina, e teu também. Sei que ele construiu este complexo. E o mais importante estou convicto que ele veio aqui para nos matar.
- A mim também?
- Pois… isso não sei. Não sei se ele sabe que tu existes, isto é, que és quem és. E sabendo, se sabe que estás aqui. Mas se souber vai querer matar-te também!
- Mas porquê?!
- Pelo simples facto de seres filha de quem és.
- Shinigami?...
- Sim, é a figura da mitologia japonesa análoga à nossa figura da morte.
- Decididamente este dia não está a correr bem…
- É louvável que mantenhas o sentido de humor! Sais à tua mãe…

Yuri sorri e Johanna retribui.


(continua)


FATifer

quinta-feira, 10 de março de 2016

XXVI

- Calma não te vou fazer mal…

Johanna reconhece a voz. É aquele homem, Yuri. Minimiza a tentativa de resistir e fica na expectativa.

- Se queres viver tens de vir comigo, sou a tua melhor chance. Vou destapar-te a boca, não grites, por favor.
(Yuri retira a mão da boca de Johanna)
- E devo confiar em si só por causa daquele discurso sobre a promessa ao seu irmão?
- Por isso e porque sabes que sozinha dificilmente sairás daqui com vida.
- Digamos que estou convencida, vai largar-me?
- Se prometeres não fugir. Não temos tempo a perder.


Katerina dirige-se à porta da sala de vigilância com o olhar faiscante de raiva. Sobe as escadas de dois em dois degraus. Ao cimo das escadas segue pela esquerda. Percorre o corredor em passo apressado mesmo com as botas que tem calçadas. Chega rapidamente à porta o fundo desta e por esta entra para uma pequena sala com duas portas uma em frente e outra à direita. Dirige-se à que está à direita. Coloca a palma da sua mão direita num retângulo ao lado da porta e esta abre. Entra e a porta fecha-se atrás de si. Está num jardim.


Yuri ainda não largara Johanna e estavam ambos a ser observados por aquele enorme tigre do outo lado do vidro. Subitamente este coloca as patas novamente no chão emite um som que se assemelha a um ronronar de um gato (um grande gato), volta-se e desaparece rapidamente da frente deles.

- Vamos! Este comportamento só tem uma explicação…
- Qual?
- A Katerina está no jardim! Vamos, não podemos deixar que ela nos veja!

Yuri agarra na mão de Johanna, que mal tem tempo de recuperar o sabre japonês que deixara cair antes de ser puxada na direcção da porta mais próxima. Entram e encostam-se ambos à porta. Yuri olha para Johanna, depois para o sabre na sua mão e sorri.

- Continuas a não confiar em mim… assim é que é.
- … mesmo que confiasse isto não ficaria bem no chão daquele corredor.
- Tens razão…
- E agora qual é o plano?


Katerina atravessa o jardim decididamente mas parece estar expectante. De repente, vindo da sua direita, um tigre enorme aproxima-se dela. Ela pára ele aproxima-se. Faz-lhe uma festa no alto da cabeça.

- Então Félix, o que andavas tu a fazer meu bichinho? Estou com pressa não tenho tempo para brincar contigo.

Katerina retoma o caminho que levava em direcção a outra porta na extremidade do jardim oposta àquela por onde entrara. O tigre olha, roda a cabeça para a esquerda e emite um rugido breve mas profundo. Katerina segue em direcção à porta. Quando a alcança digita um código num painel na própria porta e esta desliza para dentro da parede permitindo-lhe a passagem. A porta fecha-se mesmo a tempo de impedir que o tigre a conseguisse seguir. Está noutra pequena sala da qual sai pela única outra porta existente após a ter aberto por leitura da palma da sua mão. Está no canto mais à esquerda de um hall decorado de forma simples mas elegante. A meio da parede oposta à sua esquerda está uma única porta. Na parede à sua direita, mais três portas além da de onde veio. A parede mais ao fundo não tem qualquer porta, apenas um grande quadro com a imponente figura de um homem de olhar altivo mas ao mesmo tempo sinistro. Dirige-se à porta na parede oposta. Para entrar, além da leitura da palma da mão direita digita um código que abre um painel onde coloca a cabeça. Um feixe de luz verde faz a leitura do seu olho esquerdo e a porta abre-se finalmente. Entra num corredor comprido todo em vidro que passa por cima de uma cascata. No fim do corredor entra num pequeno hall onde um feixe de luz azul faz o scan do espaço. A porta à sua frente abre-se e ela entra.


- Plano? Vamos aproveitar a distração que ele proporciona para fugirmos.
- Ele quem?
- Isso não interessa. O que interessa é que ela vai estar distraída e isso dá-nos a melhor oportunidade que poderíamos ter.
- Porque que é que fico com a impressão que me está a esconder algo importante?
- Minha linda, acredita que estar-te a contar a história agora só nos faria perder tempo.


(continua)


FATifer

segunda-feira, 7 de março de 2016

XXV

Johanna entra na sala ao fundo do corredor. Parece ser uma sala de treino. Está escuro. A única luz provem da pequena luminária que indica a saída de emergência. Ao segundo passo que dá a sala ilumina-se. Deve ter um sensor, pensa. Olha em volta. À sua frente tem um espaço com equipamentos para musculação que ocupa cerca de metade da sala. A outra metade tem um tatami e várias armas nas paredes.

- Menina Katerina os homens estão a postos à entrada sul da sala de treino.
- Muito bem Petre e ele?
- Aproxima-se da entrada norte.
- Manda-os entrar e tomar posição.
- Sim menina.
- Katerina…
- O que foi Yuri, já te disse que não vou a lado nenhum! Petre coloca o áudio das comunicações nos altifalantes, quero ouvir o que se passa.

Ficam a olhar para os monitores. Observam os homens a entrar na sala e a tomarem posição, ficando a aguardar a entrada do alvo pela porta norte. Ninguém quebra o silêncio. Petre comunica-lhes que o alvo se está aproximar da porta. Subitamente as luzes da sala apagam-se. Apenas se ouvem gritos de dor e rajadas de metralhadora que provocam clarões que iluminam pontualmente a sala. Este cenário não demora mais que meio minuto e o silêncio retorna àquela sala.

- O que se passou?
- O que é que tu achas Katerina?...
- Yuri não sejas pessimista… Petre, alguém responde?
- Não menina.
- Eu não acredito nisto!


Johanna ouvira barulho. Pareciam rajadas de metralhadora e vinham do andar de baixo. Encostara-se a uma parece e olhava alternadamente para ambas as portas da sala, na expectiva. Na sua mão tinha agora um sabre japonês que retirara do seu suporte na parede. O punhal tinha-o guardado ao cinto. Ao ver que nada acontecia foi-se dirigindo para a porta oposta à qual por onde tinha entrado.


- Katerina… espero por ti na tua sala de treino.
- Quem disse isto Petre?
- Veio do dispositivo de comunicação do Nikolai Russov mas não é a voz dele.
- Yuri?

Katerina olha para o lado e não vê Yuri o que a deixa furiosa. Volta a olhar para os monitores mas, de repente todos se desligam.

- Petre, podes ir, estás dispensado.
- … mas menina.
- Vai Petre, não mereces morrer também.
- Menina… conheço-a desde que nasceu, seria uma honra dar a vida por si!
- Eu sei Petre, noutras circunstâncias não te privaria desse privilégio mas neste cenário não me parece que a tua morte teria a honra que mereces. Vai.
- Se é essa a sua vontade… tenha cuidado.

Petre sai da sala de vigilância e deixa Katerina sozinha olhar para um conjunto de monitores pretos.


Johanna saíra da sala de treino no primeiro piso para outro corredor. À sua esquerda outra parede de vidro que parece dar para o mesmo jardim. As nuvens continuam a impedir que se aviste a lua cheia. À sua direita há duas portas e à frente, ao fundo do corredor, uma terceira. Prossegue cautelosa enquanto tenta decidir que porta abrir. Passa a primeira porta e continua. Olha ocasionalmente para a parede de vidro, como se esperasse rever aquele par de olhos que não sabe se realmente viu. Inconscientemente está mais perto da parede de vidro. Repentinamente ouve um som seco, olha e vêm um enorme tigre com as duas patas dianteiras encostadas na parede de vidro a seu lado. O susto fê-la deixar cair o sabre japonês. Quando se preparava para o recuperar sente-se envolvida por uns braços fortes e uma mão a tapar-lhe a boca, impedindo-a de gritar.


(continua)


FATifer

sábado, 5 de março de 2016

XXIV

Yuri olha Katerina e não responde. Volta a sua atenção para os monitores e fica a observar.

- Petre quantos homens estão no complexo?
- Eramos vinte cinco, menos sete, dezoito. Correcção… menos oito, dezassete.
- Yuri, o que achas, libertamos o Félix?
- Se queres um novo tapete para a lareira, sim.
- Yuri!
- O que foi?… nem sei porque é que perguntas… claramente a tua avaliação do perigo desta situação não coincide com a minha. No entanto, mantenho que, na minha opinião, libertá-lo seria um desperdício de um tigre.
- Sim, parece que não estamos de acordo. Continuo a achar que lhe dás demasiado crédito.
- Talvez porque o conheça há mais tempo e muito melhor que tu.
- Eu não digo!… é apenas um homem…
- Katerina, não são muitos os que, tendo-o visto ao vivo e cores, tenham ficado para contar… eu serei dos poucos.
- …


Johanna chega à porta. Encosta a orelha direita a meio da porta tentando perceber pelo som se será seguro abri-la. Não ouve nada e decide arriscar abri-la. Olha. O corredor com que se depara, estende-se para ambos os lados e parece estar vazio. Espreita melhor, tentando decidir para que lado deve ir. Em frente a parede é de vidro e dá para um jardim iluminado apenas pela luz da lua cheia, que as nuvens, por momentos, permitem que brilhe. Johanna como que hipnotizada pela luz avança e fica a olhar o círculo redondo e brilhante no céu. A lua desaparece novamente por detrás das nuvens e Johanna olha para os ambos os lados. O corredor continua deserto. Olha de novo em frente e parece ver de relance um par de olhos no jardim. Olha melhor e nada vê. Deve ter sido imaginação, pensa para consigo. Começa a caminhar para a direita, objectivo a porta que se encontra ao fundo do corredor para esse lado.


- Yuri, estamos aqui tão entretidos com ele que quase nos esquecíamos dela!
- Esquecíamos ou esqueceste?
- Estás para me contrariar ou quê?
- Ela está ali.
(Yuri aponta para um dos monitores)
- Yuri, meu fiel Yuri… o que me esqueço é que tu estás habituado a controlar tudo…
- Alguém tem de o fazer…
- … não querendo interromper é meu dever avisá-los que já só temos treze  homens.
- Catorze, contando contigo Petre.
- … não menina, quando disse treze já estava a contar comigo. Agora somos doze.
- Onde é que ele está? Quem é que podemos chamar?
- Não há tempo para chamar ninguém, Katerina.
- Ele está a caminho da sala de treino do rés-do-chão.
- Manda todos os homens que nos restam ter com ele Petre! Menos tu claro.
- Sim menina.
- Vais facilitar-lhe o trabalho, Katerina.
- Yuri… então o que sugeres que faça?
- Já te disse o que devias fazer.
- Fugir?! Nunca! Petre os homens não estão armados?
- Sim, têm as AK47.
- Então porque é que não os ouvimos a disparar?!
- A menina está a ver o mesmo que eu, certo? Ele não lhes dá tempo…
- Sim o raio do homem parece um fantasma!
- Lembra-te o que lhe chamava o Pedro Castro… e não era o único.
- Shinigami… deus da morte… um exagero Yuri.
- És uma mulher difícil de convencer.
- Por mais que não o considere digno de me enfrentar, se chegar a isso eu mostro-lhe quem é a morte!
- O teu pai disse algo similar e…
- O meu pai? Estás a dizer-me que foi este homem que matou o meu pai!?
- …
- Yuri? Diz-me que inventaste isto agora para tentar meter-me medo!
- Falei demais… nunca diria isso para te tentar intimidar… sei perfeitamente que tem exactamente o efeito contrário.
- Então é verdade?
- Sim Katerina, foi ele que matou o teu pai… e agora vem nos matar a nós.
- Falas como se fosse uma coisa certa!
- Minha menina… pela última vez, vamos embora enquanto ainda podemos.
- Yuri, com podes sugerir uma coisa dessas? Temos a hipótese de vingar a morte do meu pai e falas em fugir?
- Bogatyr… eu tentei mas ela não me ouve!


(continua)


FATifer

quarta-feira, 2 de março de 2016

XXIII

Johanna estava um passo à frente do cadeirão. Katerina estava talvez a cinco passos dela. Num movimento rápido com a mão esquerda retira uma das facas de arremesso do seu braço direito e envia-a na direcção de Johanna, que mal tem tempo de se desviar. A faca fica espetada no cadeirão. Katerina preparava-se para retirar outra faca quando sente uma lâmina junto ao queixo.

- Eu disse que já chegava minha menina… porque é que só ouves quando falo esta língua?

Johanna permanece imóvel olhando para Katerina e Yuri. A expressão corporal de ambos demonstra resolução. Katerina desviara o olhar de Johanna e olhava de lado para Yuri.

- Yuri… o que estás a fazer?
- A chamar-te à razão.
- Eu disse para não te meteres…
- Minha menina… já chega. A brincadeira acabou. Já te disse que não a podes matar.
- Yuri, Yuri , Yuri… estás sempre a falar na promessa que fizeste ao meu pai e agora estás a ameaçar-me?
- Se prometi ao teu pai que olhava por ti, também prometi ao meu irmão que a protegeria a ela. Será que queres mesmo testar qual das promessas cumprirei?

Katerina olha directamente para Yuri, a expressão inquisidora e penetrante como que tentando intimidar. O olhar de Yuri mantém-se inalterável e fixo nela. Katerina, baixa os braços e coloca o punhal à cintura novamente. Yuri embainha o sabre japonês. Quando ambos deixam de se fitar mutuamente e olham para onde Johanna estava não a vêem. Olham-se incrédulos e correm em direcção à porta por onde entrara Katerina.


Um vulto negro salta um muro alto entrando num jardim. Move-se rapidamente atravessando o espaço aberto em direcção à ponta do edifício à sua frente. Os dobermann a um canto levantam o focinho mas não ouvindo mais nada voltam à posição de descanso. Encostado à parede dá dois passos e desaparece como se tivesse entrado por uma porta que não se vê.


- Como foste deixar a porta aberta?
- Porque é que me distraíste?
- Bem não vale a pena este jogo do empurra temos é de encontra-la!
- Pois que tal tentarmos a sala de vigilância?
- …e não é para aí que estamos a ir?

Yuri e Katerina tinham percorrido o pequeno corredor existente entre a sala de onde saíram e o grande hall onde agora entravam por uma porta dissimulada a um canto. No centro do hall estava uma escadaria em mármore. Eles dirigem-se a um porta no lado oposto ao por onde haviam entrado. Ao entrarem na sala de vigilância deparam-se com o vigilante de serviço a seguir um vulto todo de negro nos monitores.

- Petre necessitamos encontrar uma rapariga loura.
- Senhor, com todo o respeito, a principal ameaça está neste homem. Estava prestes a soar o alarme. Já matou cinco guardas. Passa por eles como se não estivessem lá!
- … se não te conhecesse Petre, diria que estás a exagerar.
- Pois antes estivesse menina.
- Mostra-me lá isso Petre.

Petre coloca num monitor a compilação das imagens que tinha guardado até ao momento, já a pensar no relatório que teria de fazer no fim do turno. Katerina e Yuri observam e por momentos esquecem Johanna.


Johanna recupera o folgo encostada a uma parede. Martinho estava errado não estavam no armazém. Olha em volta tentando perceber se haveria alguma câmara ou dispositivo de vigilância. Olha para o punhal na sua mão e recorda, a morte de Martinho, as palavras daquele homem, a luta com aquela mulher. Respira fundo e mexe-se em direcção à porta oposta àquela por onde entrou naquela sala.


Mais dois guardas no chão à sua passagem e o vulto de negro prossegue o seu caminho. Parece saber para onde se dirige, não mostra qualquer hesitação. Os guardas não conseguiram reagir, os golpes foram rápidos e precisos. Entra na sala seguinte, não vendo opositores acena para a câmara e prossegue o seu caminho.


- Nunca pensei que ele tivesse a ousadia de voltar…
- Já matou todos os outros, vem acabar o trabalho Katerina.
- Como se atreve! Acha que vai sair daqui vivo?!
- Não será melhor seguirmos o procedimento de evacuação de emergência?
- Yuri, estás a falar a sério?!


(continua)


FATifer

domingo, 28 de fevereiro de 2016

XXII

Yuri olha para Johanna, depois para Katerina.

- É uma longa história… tudo começou nas planícies geladas da tundra siberiana.
- Não vais contar história da vida do meu pai, pois não?
(Katerina andara mais uns passos e podia agora ver directamente Johanna. Esta mantinha-se imóvel no cadeirão olhando para Yuri)
- Katerina, ensinei-te muito mas paciência, não te consegui ensinar…
- Versão curta, por favor! Como é que esta loura é filha do meu pai? … sim que da minha mãe duvido que seja.
(Johanna olha momentaneamente para Katerina e recebe de volta um olhar que mais parece uma chicotada)
- Como queiras… como sabes, o teu pai teve muitas mulheres. A tua mãe tolerava mas no dia que lhe chegou aos ouvidos que nascera outra filha dele… bem digamos que foi um milagre que a Svetlana, agora Johanna, tenho sobrevivido. A mãe dela não teve a mesma sorte.
(As feições de Johanna alteraram-se ligeiramente, há uma surpresa no seu olhar)
- Não acredito em “milagres”, conta lá esse pormenor melhor…
- Não assisti. O que sei foi o que o meu irmão me contou no seu leito de morte. Já que queres a “versão curta” vou-me escusar a detalhes sobre o que fizeram à mãe mas foi o meu irmão que salvou a menina.
- O teu irmão?
- Sim ele amava a mãe e tinha jurado, a ela e ao teu pai, proteger a menina até à morte. Coisa que fez anos mais tarde.
- Estou a ver… porque falas nele, não te vou ofender perguntando-te se não estás a inventar esta história toda só para salvar esta loirinha… mas vou perguntar o que estavas a pensar fazer antes da minha interrupção?
(Katerina olha para Johanna que lhe tenta devolver a “chicotada” com o olhar. Katerina fita Yuri aguardando resposta).
- Eu ia tentar acalmar esta jovem…
- Às vezes acho-te piada Yuri… criticas-me mas… explica-me lá… matas a criatura que vinha com ela e depois vais “acalmá-la”. Se fosse eu no lugar dela acho que eras tu que já estarias calmo, demasiado calmo até.
- Katerina…
- E tu ó loura, vais ficar aí caladinha?
(Johanna olha Katerina e depois Yuri, tentando avaliar até que ponto devia ou não responder)
- Bem, se não dizes nada vais ter de te mexer… Yuri devolve-lhe o punhal.
- O que vais fazer?
- Estou a dar o benefício da dúvida à tua história… mas se ela é mesmo filha do meu pai vai ter de mo provar. Não te preocupes eu não a vou magoar… muito.
- Katerina…
- Vá Yuri, deixa-te de coisas, devolve-lhe o punhal senão isto será ainda mais injusto para ela!

Yuri faz deslizar o punhal pelo chão e este fica aos pés de Johanna. Katerina deixa cair no chão o longo casaco comprido que envergava. Johanna permanece imóvel olhado para Katerina. Observa-a, toda vestida de preto. Cabelo preso num longo rabo de cavalo. Botas com saltos agulha, fato de couro colado ao corpo. Em vários pontos da indumentária tem o que parecem ser pequenos punhais ou facas de arremesso.

- Minha cara, é assim: ou te levantas e lutas ou morres. Prometo ser rápida.

Katerina retira um punhal que tinha à cintura e avança em direcção a Johanna. Nesse instante Johanna apanha o punhal, que tinha à sua frente, dá uma cambalhota e vira-se, ficando em pose de espera com o punhal na mão direita e a lâmina para fora. Yuri afastara-se. Katerina parara o seu movimento e fita Johanna.

- Afinal estás cá!… ok vamos dançar.

Katerina volta a avançar e desfere um golpe com o punhal. Johanna bloqueia o golpe e os três seguintes, demonstrando agilidade e reflexos. Katerina dá um passo atrás e fita de novo Johanna. Esta responde com um ligeiro sorriso, mantendo uma expressão concentrada.

- Para primeira impressão não está mal. Agora vamos ver do que realmente és capaz.

Katerina investe na direcção de Johanna. Os golpes sucedem-se. O som metálico das lâminas a encontrarem-se repete-se, ecoando pela sala. Yuri, encostado à parede, observa aquela estranha dança. Duas mulheres numa coreografia muito particular. Observa a elegância e precisão dos golpes de Katerina mas igualmente a destreza e agilidade da defesa de Johanna. Katerina aumenta o ritmo e o inevitável acontece, com um gesto mais largo consegue um golpear Johanna no braço esquerdo. Param por momentos. Katerina com um sorriso lambe da lâminha do seu punhal o sangue de Johanna. Esta levanta as sobrancelhas, acena com a cabeça para o braço direito de Katerina olhando em seguida para a lâmina do seu punhal, por um instante. Katerina perde o sorriso ao aperceber-se que também havia sido golpeada. A sua expressão demonstra misto de raiva e ultraje.

- Já chega meninas!
- Como já chega? Esta… loura… teve a ousadia de me atingir! Isto não fica assim!
- Katerina! Tu é que pediste a demonstração…
- Yuri… não te metas, isto só acaba quando eu quiser!


(continua)


FATifer

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

XXI

Olham um para o outro e levantam-se. Chegam à porta, um de cada lado. Johanna empurra-a delicadamente, esta mexe. Martinho faz-lhe sinal que não está a ver ninguém. Johanna empurra mais a porta até que esta fica toda aberta. Olham e, embora não haja muita luz, não há ninguém à vista. Saem da sala para um corredor longo e pouco iluminado. Ao fundo uma luz, por cima de uma porta, indica a única saída. Percorrem o corredor cautelosamente. Não há nada que possam usar como arma à vista, o que os faz sentir de certo modo “despidos“. Chegam à porta. Esta dá para uma escada que sobe. Olham para cima e não se distingue o fim da escada, está demasiado escuro. Voltam a olhar um para o outro e começam a subir. Quando chegam ao topo da escada deparam-se com um pequeno patamar com uma porta fechada ao fundo. A única luz vem da ombreira da porta que está debruada a vermelho. Assim que entram no patamar um feixe de luz azul percorre todo o espaço e ouve-se um som vindo da porta. A luz que debrua a porta passa a verde. Aparentemente estará destrancada. Martinho empurra-a ligeiramente com o pé para confirmar e ela mexe. Com um gesto decidido, Johanna empurra a porta, deixando-a escancarada. Entram ambos numa sala grande. Johanna sente algo de familiar naquele espaço pouco iluminado.

- Esta sala parece-se com as salas da casa do Pedro. Com esta luz ao nível do chão.
- E isso é bom ou é mau?
- Pois não sei…

Olham em volta, a sala aparenta estar vazia mas o centro está demasiado escuro para ter a certeza.


- Johanna McGill…
- Quem falou?
- Calma Martinho…
- Eu conheço esta voz! É…

Martinho não termina a frase porque um punhal o atinge mesmo na traqueia, fazendo-o cair de joelhos agarrado à garganta. Cai depois para o seu lado esquerdo e fica deitado de costas. Johanna ajoelha-se a seu lado apenas a tempo de ver o seu último olhar, um misto de despedida e súplica de vingança. Johanna retira o punhal com a mão direita e levanta-se. Nesse instante, o centro da sala ilumina-se, mostrando um cadeirão de couro castanho-escuro. Nele sentado está um homem todo vestido de negro (fato, camisa, gravata, meias e sapatos). Johanna olha-o tentando resistir à tentação de lhe devolver o punhal da mesma forma que ele o “oferecera” a Martinho. Por instantes ficam imóveis fitando-se.

- Quem é, como me conhece e o que pretende de mim?
- Calma minha querida… tudo a seu tempo. Parece que a lição de cumprir horários não surtiu grande efeito. Continuas impaciente.
- … impaciente… eu mostro-lhe impaciente!!

Johanna inicia o movimento na direcção do homem que permanece imóvel. Quando Johanna está a dois passos do cadeirão ele levanta-se e num movimento fluido envolve o braço em que Johanna tem o punhal retirando-lho e, ao mesmo tempo, projectando-a para o cadeirão, onde Johanna fica sentada. Fitam-se novamente.


- Vityaz! Ela é minha!
- Katerina… não devias estar aqui…
- Achavas que conseguias que não soubesse o que andavas a fazer, Yuri?
- Esperava tê-lo conseguido mas aparentemente… Katerina… já te disse que não a podes matar!
- Porque não?
- Porque ela é tua irmã!
- O quê?! O que é que estás a inventar?
- Não estou a inventar nada… vocês são irmãs!


Katerina entrara na sala por uma porta do lado oposto ao que Johanna e Matinho o tinham feito. Caminhava na direcção do cadeirão. Johanna apenas a ouvia mas não arriscar mexer-se. Yuri ia olhando alternadamente para cada uma. Do punhal, na sua mão esquerda, ainda pingava sangue de Martinho. A sua expressão facial e corporal estava muito mais tensa do que anteriormente, quando apenas tinha Johanna com que se preocupar. Johanna permanece na expectativa, ouvindo os passos de Katerina enquanto esta se aproxima do cadeirão do lado oposto ao que Yuri se encontra. Olha para Yuri em frente à sua esquerda. Este devolve-lhe o olhar, acrescentando um gesto discreto, com a mão direita, como que tentando tranquilizá-la. Katerina pára três ou quatro passos atrás do cadeirão. Olha para Yuri.

-Explica-me lá essa história de sermos irmãs…


(continua)


FATifer

sábado, 20 de fevereiro de 2016

XX

Johanna acorda com o barulho de uma porta a fechar-se. Levanta-se lentamente do chão onde se encontra deitada e vê…

-Martinho?!
- Johanna…
- Como é que saíste de minha casa? Onde é que estamos?
- Respondendo à tua segunda pergunta, não sei bem mas suspeito que na cave do armazém. Em relação à primeira… é uma longa história.
- Ok contas-me mais tarde… agora vamos sair daqui.
- Calma Johanna… acho que isso vai ser mais difícil do que parece.
- Achas que não consigo abrir esta porta?
- Acho que pensas que sim… mas, para além disso, o que me preocupa é o que está do outro lado.
- Uma coisa de cada vez.

Johanna dá um pontapé na porta mas esta não abre como ela esperava. Ouvem bater do outro lado e uma voz a falar, dizendo algo impercetível. Johanna olha para Martinho que retribui o olhar com uma expressão como que a dizer: “eu não te disse?”.
Johanna olha em volta. A divisão em que se encontram é relativamente pequena, talvez com quatro por quatro metros. Não tem janelas, apenas uns respiradores junto ao tecto, na parede que tem a porta. A porta não tem fechadura nem maçaneta. Fixa o olha na parede por cima da porta e pergunta-se porque só agora se apercebeu do que será o detalhe mais importante da divisão, o relógio digital que ali se encontra. O relógio marca 22:23. Olha para Martinho.

- Também já coloquei essa hipótese Johanna. Teremos de esperar uma hora para a confirmar.
- Achas mesmo que a porta se abrirá daqui a uma hora e nove minutos, às 23:32?
- Parece-me que estaremos cá para ver…
- Gostava de não concordar mas…

Johanna senta-se no chão encostada à parede oposta à porta, mesmo em frente desta. Martinho mantém-se em pé, à sua esquerda.

- Ora já que temos tempo para gastar, que tal contares-me como saíste de minha casa?
- Queres mesmo saber?
- Quero!
- Ok… depois de perceber o que tinhas feito, deixando-me sem roupa, sem comunicações, sim que até o computador levaste, e fechado à chave… vesti um vestido teu e abri a fechadura com uma pinça e pronto!
(Johanna olha Martinho com cara de “poucos amigos”)
- …ai foi? E qual foi o vestido que vestiste? Só para te mandar a conta…
- Pronto não faças essa cara. Estava a brincar. A verdade é que depois de me ver na situação em que me deixaste… a propósito porquê que fizeste isso?
- Estás a fugir ao assunto… acho que é obvio porque o fiz, não queria que viesses comigo!
- Pois… e garanto-te que o teu plano teria resultado não fosse o facto de terem entrado três “armários” pela tua porta a dentro e me terem trazido para aqui. Havias de ter visto a cara deles quando me viram nú. Pensando bem um até…
- Mas vestiram-te, ao que parece…
- Sim deram-me estas roupas. Por isso são tão largas, caso estejas a estranhar…
- …então mas três homens entraram pelo meu apartamento e levaram-te sem mais nem menos?
- Sim… e nem sequer arrombaram a porta!
- Não sei porquê mas, por mais inverosímil que fosse, gostava mais da tua primeira versão.
- Inverosímil porquê, achas que não era capaz de vestir um vestido teu?
- Capaz de tentar eras mas duvido que conseguisses caber em algum… e também não te estou a ver a conseguires abrir a minha fechadura com uma pinça…
- Se queres que te diga nem cheguei a tentar…
- Ainda bem, em relação ao vestido, pelo menos assim não tenho perdas a lamentar.
- Infelizmente, isso não é verdade…
- Como assim?
- … não sei como te dizer isto…
- Desembucha Martinho!
- … a kitty…
- O que tem a kitty?
- Ela estava ao pé de mim quando eles entraram… e…
- O que é que eles fizeram à kitty?
- … é melhor não te contar…
- Como é que a mataram?
- Johanna ela tentou proteger-me…
- E…
- … um deles agarrou-a pelo pescoço e só ouvi um estalo…
- …

Johanna olha para Martinho e depois para o chão entre as pernas. Martinho senta-se a seu lado. Ficaram em silêncio. Por fim Martinho chegou-se a ela e abraçaram-se.

- Desculpa… não consegui evitar… foi tudo tão rápido…
- O que poderias fazer, não te deixei forma de te defenderes…
- O MacGyver teria arranjado maneira…
- Sem o canivete e a fita isoladora, não sei…

Sorriram ambos. Ouviram um barulho do outro lado da porta. Olharam para o relógio, marcava 23:31. Assim que passou a marcar 23:32 a porta abriu-se.


(continua)


FATifer

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

XIX

Martinho acorda com kitty a lamber-lhe uma pálpebra. Olha para o lado, Johanna não está na cama. Olha para o relógio do rádio despertador na mesa de cabeceira do lado oposto ao que está deitado. Passa do meio dia. Levanta-se devagar. Ao passar à frente do espelho é que toma consciência que está nú. Olha em volta, não vê qualquer das suas peças de roupa no quarto. Deviam estar aqui as boxers, as calças e as meias, pensa. Segue até à porta do quarto olha para a sala e nada, nem vislumbre da camisa ou do casaco que deixara no bengaleiro. Começa a perceber o que se passa e o sorriso que tinha, quando ainda achava tratar-se de uma brincadeira, desvanece-se. Já descrente continua a procurar pelo resto da casa. Nada. Não há Johanna, não há roupas, não há telemóvel. O telefone fixo também desaparecera e a porta está fechada à chave. Olha para kitty que o seguia nas deambulações pela casa e pergunta:

- E agora kitty, o que é que fazemos?


Johanna segue no carro a caminho do armazém. O plano é simples, embora não necessariamente fácil, escolher um local onde consiga observar o armazém sem ser vista. O facto de só ter ido lá de noite não lhe permite ter a noção do que irá constatar em breve:
O armazém está isolado no meio de um descampado. O que é bom, pois não permite que ninguém se aproxime sem ser avistado mas é mau, porque não há local para se esconder para fazer a vigilância que pretende.
Da estrada, a cerca de três quilómetros do armazém, já o consegue avistar. Tomando consciência da impossibilidade de levar por diante o que tinha idealizado, passa pelo armazém e segue enquanto pensa num plano alternativo.


Numa sala pouco iluminada vê-se um vulto sentado no chão. A pouca luz de duas velas trémulas a seu lado faz aparecer e desaparecer sombras ondulantes nas paredes brancas. Parece estar em meditação. Não se ouve um som. Num só movimento ergue-se e fica de pé. Dirige-se à parede à sua frente de onde retira de um suporte uma corrente com cerca de 3 metros de cumprimento e com duas lâminas uma em cada umas das extremidades. Retira do bolso uma esfera que atira ao ar. Com um movimento rápido e preciso com a corrente, secciona com uma das lâminas a esfera em duas metades. Do interior desta surge um conjunto de penas brancas que ficam a pairar. Rodopia colocando assim a corrente num movimento circular que leva as lâminas a irem seccionado todas as penas em dois, quanto atingidas. As metades das penas atingem o chão e a corrente termina o seu bailado. Enrola a corrente e devolve-a ao suporte na parede. De seguida pega numa lança que também se encontrava na parede, noutro suporte. Volta ao centro da sala e inicia um conjunto de movimentos que parecem coreografados. No entanto, esta seria uma dança perigosa para alguém alvo dos movimentos desta lança, que parece que desliza nas suas mãos. Passará a tarde toda em exercícios com todos os muitos utensílios que cobrem a parede daquela sala.


Johanna não teria andado mais de um quilómetro e faz inversão de marcha. Tinha decidido. Se não podia vigiar ia entrar de imediato. Tenta ignorar o instinto que lhe indica que não deve, que é demasiado arriscado. Pára o carro à frente do armazém e sai. Segue em direcção à porta lateral que usara naquela noite. Estranha o facto de não ver as fitas a selar o que era uma cena de um crime mas depois recorda que o caso era agora “CONFIDENCIAL”. A Porta está fechada. Suspira e contorna o edifício até às traseiras à procura de outra entrada. A porta das traseiras também está fechada. Acaba de contornar o edifício constatando que todas as todas as portas estão fechadas. Pondera as suas opções. Será melhor forçar uma das portas ou tentar as janelas? Volta ao carro. Retira da mala um pé de cabra e dirige-se a uma das janelas onde os tapumes parecem mais fragilizados. Sem grande esforço consegue abrir uma fresta por onde passar. Tem de retirar os restos dos vidros para não se cortar mas depois disso entra sem dificuldade. O estado de degradação dos taipais permite alguma visibilidade mas mesmo assim decidiu acender a lanterna. Olha o espaço não encontrando grandes diferenças em relação ao que recordava. Dirige-se para a escada de acesso ao primeiro piso. Logo que pisa o primeiro degrau uma nuvem de fumo surge do tecto. Sente-se desfalecer.


(continua)


FATifer